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A Escuta Madura como travessia para o universo do outro

  • Foto do escritor: Fernanda Abrantes
    Fernanda Abrantes
  • 28 de abr.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 30 de abr.

“A gente não se apaixona porque a pessoa fala bonito, mas porque ela ouve bonito. É na escuta que o amor começa. É na ausência de escuta que ele termina.”

— Rubem Alves


🎧 Este conteúdo também está disponível em formato de #8cast no Spotify da Eight. Confira!



Quem me conhece sabe o quanto me sinto profundamente inspirada pelos saberes antigos da humanidade. Saberes que atravessam o tempo e continuam nos oferecendo lentes para compreender, com mais amplitude, a experiência humana.


É por meio da Antroposofia — a ciência espiritual trazida por Rudolf Steiner — que encontro uma dessas lentes que mais me encantam: a dos 12 sentidos humanos. E é a partir dela, junto com referências mais atuais que são nossas bases na Eight - como a Teoria U de Otto Scharmer e a CNV de Marshall Rosenberg - que escolho compartilhar uma reflexão sobre Escuta Madura.


Quando pensamos em comunicação, ainda pensamos mais no falar do que no escutar. Mas talvez este seja um dos grandes equívocos do nosso tempo.


Escutar não é passivo. Escutar é um ato profundamente ativo — e, mais do que isso, um ato de consciência.


Na visão antroposófica, o Ser Humano não possui apenas cinco sentidos, mas doze. Esses sentidos são compreendidos como portas de relação com o mundo — e se organizam em três grandes dimensões: os sentidos do corpo (tato, vital, movimento e equilíbrio – são os ligados ao corpo físico), os sentidos da alma (olfato, paladar, visão e térmico – são os relacionados ao sentir e às emoções) e os sentidos do espírito (audição, linguagem, pensamento e o “Eu alheio” – são os relacionados ao pensar e à conexão com o outro).


É interessante perceber que, nessa visão, a audição não é apenas um sentido físico. Ela pertence a um nível mais sutil da experiência humana — aquele que nos permite acessar o outro para além da superfície e da aparência.


E aqui emerge uma ideia profundamente simbólica: para Steiner, o sentido da audição é uma metamorfose do sentido do equilíbrio. Ou seja, para realmente escutar o outro, antes precisamos estar em equilíbrio dentro de nós. Essa afirmação, por si só, já nos desloca.

Porque revela que a escuta madura não começa no ouvido — começa no nosso estado interior. Escutar exige eixo, presença e um certo silêncio interno que não é ausência de pensamento, mas qualidade de pensamento.


Na Antroposofia, a cada sentido temos uma virtude correspondente a ser desenvolvida e duas delas são especialmente associadas a esse caminho: o controle da fala e do pensamento (relacionada ao sentido da audição) e o altruísmo (relacionada ao sentido do equilíbrio).


O controle da fala não diz respeito a reprimir-se, mas a refinar-se. É a capacidade de suspender o impulso de interromper, opinar, aconselhar ou impor as nossas verdades — criando espaço para que o outro possa realmente emergir.


O controle do pensamento, por sua vez, nos convida a observar nossos julgamentos automáticos. Aquela voz interna que rapidamente classifica, compara e interpreta.


E o altruísmo nos faz sair de nós e olhar verdadeiramente para o outro. Nos purifica e nos desloca do nosso umbigo.


Escutar, aqui, deixa de ser sobre mim — sobre o que eu penso, sinto ou responderia — e passa a ser um gesto de genuína abertura ao outro.


Esse movimento encontra um eco muito claro na Teoria U, de Otto Scharmer que nos fala sobre os diferentes níveis de escuta — desde uma escuta mais superficial, centrada na confirmação do que já sabemos, até uma escuta generativa, que permite que algo novo emerja.


Ele nos convida a abrir três dimensões: Open Mind, Open Heart e Open Will.


  • Uma mente aberta, que com curiosidade suspende julgamentos.

  • Um coração aberto, que, sem receio da vulnerabilidade, se conecta com a experiência do outro.

  • E uma vontade aberta, que de forma corajosa se dispõe a deixar ir o velho para permitir o novo vir.


Quando olhamos por essa lente, percebemos que a escuta madura não é apenas uma habilidade — é uma travessia que nos pede coragem.


Coragem para suspender certezas.

Coragem para sentir o que o outro sente.

Coragem para não saber.


Nos materiais da Teoria U, há uma frase que me toca profundamente: “Construir uma consciência de que temos escolha na forma como ouvimos e prestamos atenção pode se tornar um fator-chave na tomada de decisões efetivas, inovação, colaboração e liderança.” Ou seja: escutar é uma escolha. E, mais do que isso, é uma prática.


Essa mesma ideia encontra ressonância na Comunicação Não Violenta (CNV), quando nos convida a escutar para além das palavras - acessando e percebendo sentimentos e necessidades.


Na CNV, escutar não é preparar uma resposta. É estar disponível para compreender o que está vivo no outro. É sair da lógica da reação e entrar no campo da conexão.


E aqui, talvez, também possamos fazer um paralelo com um arquétipo muito caro à Antroposofia: o do Ser Humano Natural e Integrado.

O Ser Humano Natural (inconsciente) reage. Ele escuta apenas a partir de seus impulsos, suas defesas, suas necessidades não conscientes.

Já o Ser Humano Integrado (autoconsciente) escuta com presença. Ele observa, pondera, escolhe. Ele sustenta o espaço do outro sem precisar se defender, se afirmar ou se antecipar.


Nesse sentido, a escuta madura é um dos caminhos de passagem entre esses dois estados.

Ela é prática de integração.

Ela é exercício de consciência.

Ela é um treino constante de alinhamento entre o pensar, sentir e querer.


Gosto muito de uma imagem trazida no livro Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende, em que a personagem principal tem uma habilidade rara: ela sabe escutar.


Mas não porque dá bons conselhos.

E nem porque diz as palavras certas.


Momo escuta de tal maneira que o outro passa a escutar a si mesmo. E talvez essa seja uma das mais belas definições de escuta madura.

Escutar de modo que o outro se encontre.


Num mundo em que todos querem ser ouvidos, mas poucos realmente escutam, desenvolver essa qualidade torna-se quase um ato revolucionário. Escutar é criar espaço, é oferecer presença e sustentar o silêncio fértil onde algo novo pode nascer.


Talvez, no fundo, escutar seja um gesto de amor.

E, como todo gesto de amor verdadeiro, começa dentro de nós.




Fernanda Abrantes

 Cofundadora da Eight, Mediadora Organizacional, Coach, Facilitadora de diálogos e artista. Busca um viver autêntico para apoiar pessoas, grupos e organizações a agirem com mais consciência e autenticidade. fernanda@8dialogos.com.br



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Referências:


  • As Forças Zodiacais – Sua atuação na alma humana, de Gudrun Burkhard

  • Os 12 Portais – Um caminho de autoconhecimento e cura integrando Florais de Bach, os Sentidos Humanos e os Signos do Zodíaco, de Eliana Leite Praça

  • Os Doze Sentidos e os Sete Processos Vitais – Rudolf Steiner

  • Teoria U, de Otto Scharmer

  • Comunicação Não Violenta, de Marshall Rosenberg

  • Arquétipos da Antroposofia

  • Momo e o Senhor do Tempo, de Michael Ende

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