O dia em que Allan Kardec me escolheu


Ao ler esse título vocês devem estar pensando: “Quanta pretensão...” ou “Tadinha... enlouqueceu de vez...” ou até “Nossa, não sabia que ela era espírita...”. Vou explicar porque resolvi escrever este texto e também o motivo da escolha desse título tão pretencioso...


Tudo começou lá nos primeiros módulos da minha Formação Biográfica. O coordenador do curso nos avisou que teríamos que escolher uma personalidade já falecida para estudarmos sua biografia e apresentá-la, então seria bom já irmos pensando em quem escolheríamos.


Eu comecei a ficar preocupada, pois nunca tinha lido uma biografia e tampouco tinha uma personalidade que eu admirasse para realizar esse trabalho. Olhava alguns de meus colegas já comentando que iriam fazer a biografia de Gandhi, Carl Jung, Teresa D’Avila ou Rudolf Steiner e eu ali... branco total.


Foi aí que o coordenador disse: “Não se preocupem, pois, na verdade, quem vai escolher vocês são os próprios biografados...”. Ouvir aquilo de certa forma me aliviou. “Ahh... então é só esperar um sinal ou um sonho quem sabe...”.


Passado algum tempo meus colegas começaram a apresentar seus trabalhos e eu ainda nem tinha escolhido o meu biografado. Ou melhor, nenhuma personalidade havia me escolhido ainda. Mas como tínhamos tempo, fui deixando, na esperança de que eu receberia um sinal.


O tempo passou. Chegou a hora em que eu realmente precisava definir meu biografado, mas ainda não havia nenhum sinal. Nadica de nada. Eu tinha aquela sensação de “não ter sido escolhida”, pois meus colegas seguiam firmes e fortes já apresentando as biografias de suas personalidades, outros lendo biografias e se preparando e eu continuava sem ninguém.


O jeito foi partir para o método ortodoxo. Entrei em sites de livrarias e comecei a procurar por biografias. Sim, porque não ia adiantar eu escolher alguém se não existissem pelo menos duas biografias sobre essa personalidade e eu já corria contra o tempo.

E foi lendo o resumo da capa de livro de uma biografia de Allan Kardec que uma palavra me capturou: “... ele era um tanto quanto cético.”

Naquele momento dois pensamentos se formaram: “Como uma pessoa que é cética fundou o Espiritismo?” e “Eu também sou cética...”. Pronto. Estava escolhida a personalidade cuja biografia eu iria fazer. Mas essa história de que o biografado te escolhe não aconteceu comigo... não recebi sinal nenhum e ainda tive que pesquisar na internet pra definir a minha escolha. O que comprovava o meu lado cético! Enfim, eu estava satisfeita com a minha escolha, pois como eu pouco conhecia sobre o Espiritismo achei que seria uma boa oportunidade para aprender.


Conforme avançava na leitura da biografia de Kardec começava a conhecer quem foi aquele ser humano, os traços de sua personalidade, seu caráter, as pessoas que o influenciaram e como sua vida se estruturou até que o mundo dos espíritos passou conscientemente a fazer parte da sua vida.


Com certeza muitos conhecem o Espiritismo, mas talvez poucos conheçam detalhes sobre o ser humano Allan Kardec que trouxe ao mundo de uma forma clara e democrática os primeiros conceitos sobre o mundo espiritual.

Minha curiosidade permanecia: como uma pessoa cética acaba acreditando na existência dos espíritos a ponto de fundar a doutrina espírita? E a resposta veio: foi através do desenvolvimento de uma metodologia e de muita pesquisa estruturada que Kardec se convenceu e passou a trabalhar a serviço do mundo espiritual.

Ao contrário do que muitos pensam, Kardec não incorporava nenhum espírito. Ele se valia de médiuns para intermediarem sua comunicação com o mundo espiritual. E sua metodologia consistia em fazer a mesma pergunta para médiuns diferentes que se comunicavam com espíritos distintos e, caso as informações recebidas tivessem congruência, ele as tomava por verdades.


E foi assim que Kardec se convenceu da existência do mundo espiritual. Foi assim também que percebeu que certos espíritos não eram “confiáveis” ou que não haviam se desenvolvido, existindo, portanto, uma certa hierarquia espiritual.

Kardec pesquisava e elaborava as perguntas que iria fazer aos espíritos pois ele acreditava que fazendo perguntas inteligentes ele receberia boas respostas.

E foi assim que Kardec foi reunindo diversas informações sobre o mundo espiritual com o objetivo de publicar um livro. Ele tinha uma preocupação: ser o mais didático possível, usar de uma linguagem clara que fosse de fácil compreensão para qualquer pessoa.


Seu objetivo era informar as pessoas e dar-lhes a opção de escolha uma vez que àquela época imperavam a igreja católica e seus dogmas. E assim ele o fez em todas as suas publicações, tanto que logo conquistou inúmeros leitores que lhe escreviam cartas agradecendo suas revelações.


E o grande dia estava chegando. Eu tinha data marcada pra apresentar a biografia de Allan Kardec. E seria virtualmente, pois a pandemia nos impossibilitou o encontro presencial. Eu tinha inúmeras preocupações: Como honrar Kardec de forma clara e ao mesmo tempo transmitindo a sua essência? Como manter meus colegas acordados por 1 hora, só eu falando e sem que eu pudesse vê-los?


Montei minha apresentação buscando o essencial. Treinei duas vezes e cronometrei o tempo: 1h 15 min. Avisei o coordenador... e ele me acalmou: “Não se preocupe... vai dar tudo certo...”. E deu! Quando terminei vi meus colegas acordados, sorrindo e me enviando muitas mensagens de agradecimento. A sensação de alívio tomou conta do meu ser, e depois orgulho, pois senti que honrei Kardec apresentando sua biografia de forma fluida e eficiente, assim como ele procurava fazer com seus leitores.


E foi através dessa experiência que eu entendi o que meu querido coordenador quis dizer com “o biografado te escolhe”.

Conhecendo o ser humano Allan Kardec, seu jeito de pensar, de se organizar e de realizar seu trabalho, eu pude identificar várias características dele que também eram minhas: um pensar estruturado, racional e lógico, uma preocupação em se comunicar de forma clara e explicar os conceitos, um jeito organizado e metódico.

Por muito tempo Kardec buscou respostas para seus questionamentos espirituais e não se conectou a religião alguma pois nenhuma delas o convencia. Para ele as coisas precisavam fazer sentido (e pra mim também!). Kardec também teve uma primeira carreira, como professor e escritor de livros pedagógicos, e só depois dos 50 anos se envolveu com o mundo espiritual. Eu também tive uma primeira carreira (no mundo financeiro) e há 10 anos trilho nova jornada atuando com desenvolvimento humano. Kardec levava uma vida discreta e não gostava de bajulações apesar de ter sido reconhecido e premiado por inúmeras de suas obras literárias antes mesmo do Espiritismo entrar em sua vida. Tantas afinidades e semelhanças com Kardec... É, o biografado te escolhe quando você consegue se conectar ao lado humano da pessoa que realizou os feitos, quando você se conecta com o ser humano e não com o mito.


Se você já leu alguma biografia talvez tenha sentido a mesma coisa: nós, seres humanos, temos muita coisa em comum e são essas afinidades que nos conectam. Sejam valores parecidos, vivências semelhantes, jeitos de ser e características que compartilhamos, tudo isso nos ajuda a perceber que somos todos iguais: somos seres humanos e juntos fazemos parte dessa grande tribo chamada Humanidade.


Para mim essa é a beleza de se conhecer uma biografia, seja de uma grande personalidade ou de uma pessoa comum.

Uma biografia é sempre uma história única e um tesouro que está sendo compartilhado e, ao receber esse presente, tenho a oportunidade de descobrir afinidades, pontos em comum, valores e experiências semelhantes ou não que despertam em mim a admiração por aquele ser humano.

E o grande aprendizado que podemos ter ao conhecer a biografia de alguém é o despertar desse senso de coletividade, de conexão com a humanidade.


Erica Mizumoto é facilitadora de processos de Retrospectiva Biográfica individual e em grupos e apaixonada pelas biografias que conhece. Também é Coach e cofundadora da Eight∞ Diálogos Transformadores.

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