São Miguel e os dragões que nos habitam

Este artigo foi publicado originalmente no Linkedin da Eighter Fernanda Abrantes no dia 30 de setembro de 2026

Ontem, 29 de setembro, foi o dia de São Miguel Arcanjo. Queria ter escrito sobre ele, mas a data passou entre os compromissos da vida. Retomo hoje, porque algumas imagens merecem ser revisitadas para além do calendário.
Independentemente de nossa religião, as histórias dos santos podem nos oferecer metáforas potentes para compreender nossa jornada de desenvolvimento humano. Seus símbolos nos convidam a olhar para experiências que todos conhecemos: o medo, os conflitos, as escolhas difíceis e a busca de forças para atravessá-los.
Tempos atrás, escrevi algumas reflexões sobre São Jorge e nossos dragões internos. Hoje, quero olhar para São Miguel: o arcanjo que, em tantas representações, aparece com a espada erguida e o dragão sob seus pés.
Na tradição cristã, Miguel é uma figura de proteção e enfrentamento do mal. Ao contemplar sua imagem como metáfora do desenvolvimento humano, encontro também um convite ao discernimento, à presença e à responsabilidade por nossas ações.
O dragão é talvez o elemento que mais nos chama atenção. Podemos reconhecê-lo como símbolo de nossos vícios, impulsos destrutivos e forças mais viscerais e inconscientes: a agressividade diante de uma ameaça, o medo que nos paralisa, a necessidade de controlar, o ressentimento que alimentamos ou a vontade de reagir antes de compreender. São forças que precisamos aprender a reconhecer e dominar, para que deixem de conduzir nossas escolhas.
Cada um de nós conhece seus dragões, ainda que nem sempre consiga nomeá-los. Às vezes, eles aparecem em uma resposta atravessada. Outras vezes, no silêncio que usamos para punir, na certeza de que só nós temos razão ou na dificuldade de aceitar aquilo que escapa às nossas expectativas.
Olhar para o dragão pede honestidade. É reconhecer que essas forças também vivem em nós e que conhecer sua presença faz parte do nosso amadurecimento.
A espada pode representar o discernimento. A capacidade de distinguir o que aconteceu da interpretação que construímos; o que sentimos daquilo que escolhemos fazer; o que precisa ser preservado daquilo que já podemos deixar para trás.
Há momentos em que precisamos dessa espada para cortar uma ilusão, interromper um padrão ou tomar uma decisão que temos adiado. Seu sentido, nessa leitura, está na clareza que nos ajuda a agir.
A armadura e o escudo nos falam de proteção e limites. Desenvolver-se também exige aprender a cuidar de si: reconhecer o que conseguimos sustentar, pedir ajuda, estabelecer fronteiras e preservar aquilo que tem valor para nós.
Essa proteção pode ser compreendida como a sustentação interior que nos permite permanecer diante de uma dificuldade. Afinal, atravessar um conflito, admitir um erro ou mudar de caminho exige algum chão dentro de nós.
A balança, presente em algumas representações de Miguel, sugere ponderação e justiça. Ao trazê-la para essa reflexão, penso na disposição de considerar diferentes perspectivas e avaliar as consequências de nossas escolhas. Que peso damos aos nossos desejos? Quanto espaço concedemos às necessidades dos outros? O que orienta nossas decisões quando interesses entram em conflito?
E há a postura de Miguel. Seu corpo firme, sua presença diante do dragão, a maneira como ocupa a cena. Vejo nessa imagem a possibilidade de permanecer consciente diante de forças intensas, sem ser inteiramente arrastado por elas.
No cotidiano, talvez isso se traduza em uma pausa. Em perceber a tensão no corpo, reconhecer a emoção e encontrar palavras para expressá-la. Em sustentar alguns instantes de desconforto antes de agir. A neurociência ajuda a compreender nossa capacidade de regular respostas emocionais; a metáfora nos oferece uma imagem para cultivar essa capacidade: encontrar firmeza para conduzir o que se move dentro de nós.
É aqui que a aproximação entre São Jorge e São Miguel se torna especialmente significativa.
Na lenda, Jorge é o guerreiro humano que enfrenta e mata o dragão. Sua história pode simbolizar a força necessária para romper com aquilo que nos aprisiona e abrir caminho para uma nova possibilidade de vida.
Miguel, como arcanjo, pertence a uma ordem espiritual elevada. Na leitura simbólica que me inspira, o dragão sob seus pés sugere outra qualidade de força: a capacidade de dominá-lo. Essa distinção não é uma regra de todas as representações religiosas — no relato bíblico, Miguel combate e expulsa o dragão —, mas uma possibilidade de reflexão a partir dessas imagens.
Jorge nos inspira a enfrentar. Miguel nos convida a aprofundar a consciência sobre aquilo que enfrentamos.
Se o dragão representa nossos impulsos, amadurecer envolve aprender a reconhecê-los e conduzi-los. A raiva pode se transformar em firmeza para estabelecer um limite. O medo pode nos ajudar a perceber uma necessidade de cuidado. A energia antes usada para controlar pode encontrar expressão em uma ação responsável.
Talvez possamos carregar essas duas imagens em nossa jornada: a força de Jorge para enfrentar o que nos aprisiona e o discernimento de Miguel para que nossos dragões deixem de governar nossas escolhas.
E você, como tem enfrentado seus dragões — e em quais momentos ainda permite que eles conduzam suas escolhas?
Fernanda Abrantes
Cofundadora da Eight, Mediadora Organizacional, Coach, Facilitadora de diálogos e artista. Busca um viver autêntico para apoiar pessoas, grupos e organizações a agirem com mais consciência e autenticidade. fernanda@8dialogos.com.br




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