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Coragem relacional: Quais conversas estamos deixando de ter por falta de coragem?

Foto do escritor: Fernanda Abrantes
Fernanda Abrantes
há 22 horas
6 min de leitura
"É muito barulhento o silêncio das palavras não ditas.” Roseni Welmerink

17:31

Como mediadora organizacional, facilitadora de diálogos e estudiosa das relações humanas, hoje tenho mais consciência de quantas conversas evitei ao longo da minha vida por receio de sustentar o desconforto de uma conversa difícil. Ainda estou longe de me considerar uma referência nisso, mas consigo perceber melhor meus gatilhos emocionais e reconhecer quando

estou deixando de expressar algo importante.


No trabalho, também encontro esse desafio com frequência. Algo nos incomoda e pensamos: “Melhor deixar para lá”. Às vezes, essa escolha é sensata. Nem todo incômodo precisa virar uma conversa. O problema aparece quando deixar para lá vira um padrão e o assunto continua vivo dentro de nós, interferindo na maneira como nos relacionamos.


O silêncio pode aparecer como distanciamento, ironia ou pouca disposição para colaborar. Conversamos sobre a pessoa com outras pessoas, mas evitamos conversar com ela. Enquanto isso, o que não foi esclarecido vai ganhando explicações na nossa cabeça a partir de nossas interpretações. E a relação passa a carregar o peso de uma conversa que nunca aconteceu.


O que estamos tentando proteger


Quando penso em coragem relacional, penso na disposição de trazer para a relação aquilo que precisa ser conversado, com responsabilidade pelo que digo e abertura para o que posso ouvir do outro. É arriscado. Podemos decepcionar alguém, descobrir que interpretamos mal uma situação ou precisar reconhecer a nossa participação no problema.


Brené Brown aborda esse encontro entre vulnerabilidade e coragem. Em suas escritas sobre liderança, retoma uma expressão que conheceu em uma reunião: “Clear is kind. Unclear is unkind.” Em tradução livre: “Claro é gentil. Não claro é cruel”.


Sua reflexão me leva a refletir: quando evito dizer algo importante para poupar o outro, quanto estou, na verdade, tentando poupar a mim mesma? Ou seja: às vezes, o que apresentamos como cuidado com o outro é uma maneira de evitar o nosso próprio desconforto. Brenê dá um exemplo muito didático

disso: não esclarecer o que esperamos de um colega porque a conversa é difícil e, depois, responsabilizá-lo por não entregar aquilo que esperávamos. Quem nunca, né?!


Kim Scott oferece uma contribuição próxima com a proposta de Radical Candor: “Care Personally” e “Challenge Directly”, ou cuidar pessoalmente e desafiar diretamente. Para mim, essa combinação ajuda a compreender algo que dizemos na Eight: o máximo de verdade, com o máximo de cuidado. Cuidar da relação inclui tornar visível o que está dificultando o encontro.


Antes de conversar com o outro


Há momentos em que reagimos inconscientemente ao desconforto lutando, fugindo ou paralizando. Atacamos para nos defender; adiamos a conversa; ou ficamos sem palavras, embora tenhamos muito a dizer. O mapa de necessidades humanas que utilizamos na Eight ajuda a olhar para essas reações e perguntar o que está sendo vivido como ameaça.


Reconhecimento? Autonomia? Pertencimento? Respeito?


Mapa de Necessidades Humanas da Eight
Mapa de Necessidades Humanas da Eight

Essa compreensão pede uma pausa. O que aconteceu, concretamente? Que interpretação fiz? O que estou sentindo? O que é importante para mim e precisa ser cuidado? Preciso também me perguntar se quero compreender o que se passa entre nós ou se estou preparando um discurso para provar que tenho razão.


Adam Grant, no livro "Think Again", nos convida a reconsiderar crenças e a exercitar a curiosidade. Numa conversa difícil, esse convite pode assumir uma forma simples: “O que eu ainda não sei sobre esta situação?”. Chegar com uma hipótese que possa ser revista muda a qualidade da escuta. Já não preciso fazer a experiência do outro caber na explicação que trouxe pronta.


Esther Perel lembra que levamos para o trabalho a história das nossas relações. Experiências anteriores participam da maneira como atualmente lidamos com autoridade, colaboração e confiança. Reconhecer isso me ajuda a olhar para meus gatilhos sem transformá-los automaticamente numa certeza sobre a intenção de alguém.


Dar linguagem ao que importa


A Comunicação Não Violenta, desenvolvida por Marshall Rosenberg, oferece uma base para esse movimento: distinguir observações de julgamentos, reconhecer sentimentos, compreender necessidades e formular pedidos. Na mediação, essa escuta permite ir além das posições que as pessoas defendem e compreender o que procuram preservar por meio delas.


“Você não respeita meu trabalho” é uma avaliação que pode fechar a conversa. Uma possibilidade de abertura seria: “Na reunião de ontem, comecei a apresentar minha proposta e fui interrompida antes de concluir. Fiquei frustrada, porque preciso de espaço para contribuir. Na próxima reunião, podemos combinar que eu conclua a apresentação antes dos comentários?”. É um exemplo ilustrativo, não uma fórmula a repetir. Essa linguagem habilidosa traz movimento para a conversa.


A conversa continua quando pergunto como a outra pessoa viveu aquela situação e escuto a resposta. Posso checar: “Entendi que você estava preocupada com o prazo e queria acelerar a decisão. É isso?”. Entender sua preocupação não apaga o impacto em mim, mas ajuda a construir uma resposta que considere o que importa para ambas. Um pedido também precisa abrir espaço para uma contraproposta; caso contrário, pode ser uma exigência com palavras mais suaves.


Criar condições para que o diálogo aconteça


O trabalho que hoje mais amo fazer é criar espaços de diálogo nos quais essas conversas de qualidade possam emergir. Há um verdadeiro deleite em acompanhar o momento em que as pessoas começam a se ouvir e descobrem que podem conversar sobre o que parecia impossível. A dificuldade nem sempre desaparece, mas passa a encontrar terreno fértil.


Na abordagem de mediação de Rudi Ballreich, presente no nosso repertório, o caminho passa pelas diferentes percepções, pelos sentimentos e pelas necessidades, antes de chegar às alternativas e aos acordos. Essa sequência me lembra de não apressar a solução. Se algo essencial ficou sem compreensão, o combinado pode ser aceito na sala e abandonado na primeira tensão do dia a dia.


Amy Edmondson contribui com o conceito de segurança psicológica e com a compreensão de que falar, perguntar e admitir erros envolve riscos interpessoais. Criar segurança não significa eliminar o desconforto ou diminuir a responsabilidade, mas ssim construir condições para que as pessoas possam se manifestar.


A reação de uma liderança a uma discordância ensina ao

grupo se haverá espaço para a próxima. Por isso, não basta pedir coragem a quem se cala, precisamos olhar para o contexto, para as hierarquias, receios de retaliação e práticas que tornam a fala arriscada.


Nas facilitações de diálogos, cuidamos da preparação, dos acordos de funcionamento e das condições de escuta. Quando necessário, a conversa precisa de apoio, proteção e mudanças no próprio contexto

organizacional.


O que queremos construir depois da conversa


John Paul Lederach amplia o olhar ao propor a transformação de conflitos. Além de responder ao impasse imediato, precisamos compreender os padrões de relação e as condições que o alimentam. Sua pergunta sobre como interromper algo destrutivo e construir algo desejado me leva a pensar no que queremos tornar possível entre nós depois dessa conversa.


Isso exige acordos que possam virar prática real, ação. O que cada pessoa pode oferecer? O que precisa pedir? Como acompanharemos os compromissos e retomaremos o diálogo se eles não funcionarem? A coragem continua quando reconhecemos que precisamos ajustar o combinado ou reparar o efeito das nossas palavras.


Sigo aprendendo que cuidar de uma relação pode exigir uma conversa que eu preferiria evitar. Não tenho garantia de como o outro vai responder. Posso, porém, preparar a minha presença com intencionalidade, escolher as palavras com cuidado e me dispor a escutar algo que talvez mude a minha compreensão.


Que conversa você vem adiando e o que precisaria cuidar, em você e na

relação, para dar o primeiro passo?


Referências para aprofundar



Fernanda Abrantes

 Cofundadora da Eight, Mediadora Organizacional, Coach, Facilitadora de diálogos e artista. Busca um viver autêntico para apoiar pessoas, grupos e organizações a agirem com mais consciência e autenticidade. fernanda@8dialogos.com.br

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