Olhos para ver, ouvidos para ouvir


Fiz uma playlist no Spotify só com músicas que estimulam coisas boas. Para mim, músicas que ativam a luz da minha alma. Sábado, dia maravilhoso, caminhada na praia. Praia que frequento há pelo menos 30 anos. Praia que já testemunhou muitas mudanças em mim, no mundo. Dessa vez fui ouvindo essa playlist, cheia de satisfação interior por todas as coisas que eu tinha passado na minha vida até chegar nessa manhã. Sim, todas. Houve algumas muito difíceis, mas elas me trouxeram até aqui também.


Escutando aquelas músicas quase conseguia ouvir a Natureza falando comigo. Sentia um amor inexplicável por tudo e por todos. Olhei para o mar, o mesmo de todos esses 30 anos. Vi um conjunto diferente na composição das ilhas no horizonte, me surpreendi. Estiveram sempre ali, as ilhas. Me perguntei como, até hoje, não tinha visto aquele conjunto lindo, aquela harmonia. Parei para contemplar. Desenhei as formas na areia. Meus olhos viam uma beleza que eu nunca tinha visto. Meus olhos viam a beleza que eu sentia dentro. E, naquele sabor da música que encantava e da praia iluminada, eu continuei andando.


Música interrompida, telefone toca e vem uma notícia que era contrária ao que eu esperava. Com voz mansa me vi intransigente, exigente, impaciente, contrariada. Com voz mansa, e até sorridente, me vi dificultando a vida do outro em nome de um capricho, me vi exercendo o poder que a posição me conferia naquela conversa. Desligamos, tudo certo, as coisas sairiam como eu queria.

Música de volta. Ouvidos para ouvir o que se passava dentro de mim. Ouvi a voz de uma pessoa que admiro muito, uma mestra para mim, dizendo “de nada adianta saber das coisas se a gente não trouxer pro miudinho”. Trazer para o miudinho da vida, para cada ação. Ouvi as palavras do Steiner, ele dizia que para cada conhecimento que adquirimos precisamos dar três passos morais. Ouvi o desconforto dentro de mim. Quem era aquela do telefone? Impaciente, exigente, arrogante. Isso, essa, não era eu.


Lembrei do poema do Juan Ramón Jimenez que transcrevo aqui:

“Eu não sou Eu.

Sou esse que vai a me lado sem que o veja.

Que, às vezes, eu vou ver e que, às vezes, esqueço.

O que cala, sereno, quando falo.

O que perdoa, doce, quando odeio.

O que passeia por onde não estou.

O que estará de pé, quando eu morrer.”

Ouvi meu coração. Eu quero ser Eu. Posso escolher. Telefonei de volta. Voltei atrás. Aceitei a solução proposta. Reconheci o esforço. Desligamos.

Mergulhei no mar.

Alma lavada.

Mudar é complexo, temos muitas intenções internas, queremos ser melhores, diferentes. Acredito que é um processo sem fim, que exige atenção constante. Compartilho aqui algumas ações que tenho colocado no meu miudinho:

  • Ao ir deitar me preparo para deixar o dia que passou, como numa “pequena morte” faço meu balanço, aonde eu não fui Eu? Como seria se tivesse sido Eu?

  • Ao acordar, saboreio a noite que passou, antes mesmo de abrir os olhos e me pergunto, quem eu quero ser hoje?

  • Durante o dia, me observo, respiro e deixo fluir... eu um dia vou ser Eu.

Christine Bona: Coach e Membro da Eight Rede Colaborativa de Coaches. Buscando sempre o novo para apoiar pessoas na descoberta e construção do caminho em direção ao seu propósito. Numa busca incessante para ser uma pessoa melhor.


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