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Pensar melhor antes de decidir

  • Foto do escritor: Michele Crevelaro
    Michele Crevelaro
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

Por que respostas rápidas falham em contextos complexos?


Há situações em que decidir rápido é necessário. Uma emergência, uma falha operacional ou uma condição de risco não permitem longas análises.


O problema começa quando levamos essa mesma lógica de urgência para situações que envolvem pessoas, cultura, confiança, estratégia, aprendizagem e mudança.


Nesses contextos, uma resposta rápida pode transmitir segurança e controle, mas nem sempre produz compreensão. Às vezes, resolvemos aquilo que está mais visível e deixamos intactas as situações que continuam produzindo o problema.


A questão, portanto, é compreender que diferentes problemas pedem diferentes formas de pensar.


Nem todo problema pede o mesmo tipo de pensamento


Problemas simples costumam apresentar relações mais claras entre causa e efeito. Quando uma lâmpada queima, trocá-la pode ser suficiente. Quando um sistema trava por falta de atualização, instalar a versão correta tende a resolver.


Problemas complexos funcionam de outra maneira.


Eles são produzidos por várias relações que acontecem ao mesmo tempo. A causa e o efeito podem estar distantes. Uma mesma decisão pode gerar resultados diferentes. E uma solução que funciona bem em uma área pode criar dificuldades em outra.


Nosso cérebro gosta de atalhos


O pensamento rápido faz parte da vida. Ele nos ajuda a reconhecer padrões, reagir a perigos e tomar inúmeras decisões cotidianas sem precisar analisar cada detalhe.


Esse recurso é útil e necessário. Mas também pode nos levar a conclusões precipitadas, principalmente quando estamos cansados, pressionados ou emocionalmente envolvidos.


Nessas condições, é comum:

  • procurar uma única causa para o problema;

  • valorizar informações que confirmam o que já pensamos;

  • confiar demais na primeira explicação disponível;

  • repetir soluções que funcionaram em outras situações;

  • agir para reduzir o desconforto, e não necessariamente para compreender o problema.


A pressa, portanto, nem sempre é sinal de segurança. Em alguns momentos, ela pode revelar nossa dificuldade de permanecer diante da incerteza.


Pensar melhor começa quando percebemos que a primeira resposta pode ser apenas uma hipótese, e não a verdade completa sobre a situação.

 

O que o pensamento sistêmico acrescenta


Um acontecimento isolado é apenas a parte mais visível de um sistema.


Por trás dele, existem padrões de comportamento, relações, estruturas, incentivos e formas de pensar que ajudam a produzir os resultados que observamos.


Desenvolver o pensamento sistêmico significa olhar menos para as partes de forma isolada e prestar mais atenção às conexões entre elas.


Em uma organização, processos, metas, relações de poder, comunicação, tecnologia, cultura e pessoas não funcionam separadamente. Esses elementos formam uma rede de influências interdependentes.


Quando um deles muda, os demais também são afetados.


Uma nova meta, por exemplo, pode alterar a colaboração entre áreas, assim como uma decisão sobre produtividade pode aumentar resultados e, ao mesmo tempo, ampliar sobrecarga, medo ou competição.


O pensamento sistêmico amplia nosso campo de visão por meio de perguntas como:

  • Que relações estão sustentando este problema?

  • Que padrão continua se repetindo?

  • O que esta solução melhora agora?

  • Quem será afetado, mesmo sem participar da decisão?

  • Que comportamento estamos incentivando sem perceber?


Para compreender uma situação, muitas vezes precisamos separar seus elementos. O risco aparece quando não conseguimos reuni-los novamente.


Analisamos a meta, mas esquecemos seu impacto sobre a equipe. Observamos o desempenho, mas não consideramos as condições de trabalho. Avaliamos o comportamento de uma pessoa, mas ignoramos o contexto no qual ele foi produzido.


Pensar sistemicamente não é tentar analisar tudo. É reconhecer as conexões que realmente importam.


Decisões também podem gerar aprendizagem


Adultos aprendem melhor quando conseguem relacionar novos conhecimentos a situações concretas, rever experiências anteriores e participar ativamente da construção de novas interpretações.


Por isso, uma decisão estratégica também pode ser uma oportunidade de aprendizagem.


Em vez de perguntar apenas:


O que devemos fazer?


Uma equipe pode investigar:


Que forma de pensar nos trouxe até aqui?


Essa pergunta desloca a conversa da procura imediata por uma solução para a compreensão dos pressupostos que orientam nossas escolhas.


Como funciona o seu modelo mental?


Modelos mentais são crenças, imagens e pressupostos que influenciam a maneira como interpretamos as situações.


Eles não são necessariamente certos ou errados. Funcionam como lentes. Ajudam-nos a organizar a realidade, mas também podem limitar aquilo que conseguimos perceber.


Quer observar como você costuma pensar durante uma decisão?


Leia cada afirmação e marque a alternativa que mais representa seu comportamento habitual.


Escala

1 ponto:

quase nunca

2 pontos:

às vezes

3 pontos:

frequentemente

4 pontos:

quase sempre

 

Vamos começar

  1. Quando um problema aparece, sinto necessidade de apresentar rapidamente uma solução.

  1. Costumo acreditar que os problemas possuem uma causa principal que precisa ser encontrada.

  1. Diante de opiniões diferentes, procuro defender minha posição antes de compreender a lógica da outra pessoa.

  1. Quando uma solução funcionou no passado, tendo a aplicá-la novamente em situações parecidas.

  1. Tenho dificuldade de manter uma decisão em aberto enquanto novas perspectivas são ouvidas.

  1. Nas análises, concentro-me mais nos resultados imediatos do que nos possíveis efeitos de médio e longo prazo.

  1. Quando os dados confirmam minha hipótese inicial, raramente procuro evidências que possam contrariá-la.

  1. Em situações de pressão, considero que fazer uma pausa para pensar é perda de tempo.


Interpretação dos resultados


De 8 a 14 pontos | Mente investigadora

Você tende a sustentar perguntas, considerar perspectivas diferentes e evitar respostas automáticas.

Seu principal desafio pode ser não transformar a análise em adiamento. O pensamento sistêmico amplia a compreensão, mas também precisa chegar à ação.

De 15 a 21 pontos | Mente flexível

Você alterna entre investigação e respostas rápidas, provavelmente de acordo com a pressão da situação.

Observe em quais contextos a urgência reduz sua curiosidade. Esse pode ser um campo importante para seu desenvolvimento.

De 22 a 27 pontos | Mente orientada à solução

Você valoriza objetividade, ação e resolução. Essas características são importantes, especialmente em situações que exigem agilidade.

O cuidado está em não agir antes de compreender as relações envolvidas. Um exercício possível é substituir a primeira solução por três hipóteses diferentes sobre o problema.

De 28 a 32 pontos | Mente reativa

A pressão por respostas parece ocupar um espaço importante em suas decisões.

Talvez você esteja associando presença de liderança à necessidade de demonstrar certeza imediatamente. Seu exercício é criar uma pausa entre o problema e a ação, mesmo que breve.


Pergunte a si mesmo:


O que posso compreender melhor antes de decidir?

Este quiz é apenas uma ferramenta de reflexão e o resultado não define um perfil fixo. Nossos modelos mentais podem ser observados, questionados e ampliados ao longo da vida.


Perguntas sistêmicas para decisões estratégicas

Antes de concluir uma decisão, escolha algumas perguntas que ajudem a ampliar a leitura da situação.


Para compreender o problema

  • Estamos diante de um acontecimento isolado ou de um padrão?

  • O que estamos chamando de causa pode ser apenas um sintoma?

  • Que fatos sustentam nossa interpretação?

  • O que ainda não sabemos?


Para ampliar perspectivas

  • Quem enxerga essa situação de outro lugar?

  • Que voz importante ainda não foi ouvida?

  • Quem será afetado direta e indiretamente?

  • O que alguém que discorda de nós pode estar percebendo?


Para antecipar consequências

  • O que esta decisão resolve no curto prazo?

  • O que ela pode agravar no longo prazo?

  • Que comportamento será incentivado por essa escolha?

  • Se todos repetirem essa decisão, que tipo de sistema construiremos?

 

Para revisar o modelo mental

  • Que crença estamos tratando como se fosse um fato?

  • Que outra explicação também poderia fazer sentido?

  • Estamos decidindo para enfrentar o problema ou apenas para aliviar nossa ansiedade?

  • O que precisaríamos desaprender para enxergar algo novo?


Antes de decidir


Pensar melhor não significa tornar tudo mais demorado ou complicado.

Significa criar um pequeno espaço entre o acontecimento e a resposta. Um espaço para observar, escutar, relacionar informações e perceber possíveis consequências.


Em contextos complexos, nem sempre teremos certeza sobre a melhor decisão. Mas podemos ampliar a qualidade das perguntas, incluir outras perspectivas e acompanhar os efeitos de nossas escolhas.


Pensar melhor antes de decidir não é criar uma complexidade desnecessária.

É respeitar a complexidade que já existe.



Referências para aprofundamento


GRANT, Adam. Pense de Novo: o poder de saber o que você não sabe. Rio de Janeiro: Sextante, 2021.


KAHNEMAN, Daniel. Rápido e Devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.


MARIOTTI, Humberto. Pensamento Complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 2010.


MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Porto Alegre: Sulina, 2015.


SENGE, Peter M. A Quinta Disciplina: arte e prática da organização que aprende. Rio de Janeiro: BestSeller, 2018.


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