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  • Foto do escritorFernanda Abrantes

O futuro do trabalho e os novos paradigmas de realização pessoal e bem-viver

Este artigo foi publicado originalmente na Revista Coaching Brasil e pertence ao dossiê "Na média e seus (re) significados", que está disponível na íntegra, para assinantes, no site da Revista.


O dossiê foi coordenado pela Eighter Michele Crevelaro e apresenta um olhar para o indivíduo, para a organização e para a sociedade, reunindo diferentes formas de escrita e reflexões acerca do que é estar na média. Aqui no blog da Eight, você pode conferir os artigos:

"Afinal, o que é estar na média?", escrito por Michele Crevelaro


Hoje compartilhamos o artigo co-escrito pela Eighter Fernanda Abrantes com a nossa parceira de longa data Ana Paula C. dos Santos sobre o tema: "O futuro do trabalho e os novos paradigmas de realização pessoal e bem-viver". Confira abaixo!



 


“Vivemos um tempo em que estamos constantemente correndo atrás. O que ninguém sabe é correndo atrás de quê.” Zygmunt Bauman

“Estagiária, trainee, analista, coordenadora, gerente, diretora. 25 anos da minha vida percorrendo uma carreira linear em grandes organizações. Nasci, cresci e me desenvolvi profissionalmente em empresas. Tive uma vida executiva próspera. Conquistei meu espaço, construí relacionamentos, fiz minha história. Avançar ainda mais dependia de mim, bastava fazer boas escolhas, manter o ritmo de dedicação “acima da média”, me destacar e seguir crescendo.


Aos 44 anos estava onde queria: posição executiva sênior, responsabilidades e desafios relevantes numa organização global, com time de pessoas incríveis, pacote financeiro bacana. O padrão de sucesso que estabeleci para minha vida tinha sido alcançado.


Porém já há alguns anos algo vinha silenciosamente mudando dentro de mim - hoje percebo que eram os impulsos da famosa crise existencial que anos mais tarde fui entender ao estudar o arquétipo das Fases de Desenvolvimento Humano da Antroposofia.


A verdade é que lá no fundo, eu sabia que as coisas que no passado eram minhas referências de sucesso já não estavam mais fazendo sentido nem me trazendo realização. Me senti confusa e perdida sobre o significado de sucesso.


Amava muito o que fazia e se dependesse de mim faria aquilo pelo resto da vida. Não via necessidade de subir mais degraus na hierarquia corporativa para me sentir realizada. Porém, este pensamento me trazia um sentimento de culpa, afinal “sou uma pessoa que cuida do desenvolvimento dos outros e não quero me desenvolver?”.


Entrei num conflito interno buscando resposta para esta pergunta, afinal era esperado de mim que eu fosse uma profissional acima da média e que quisesse continuar crescendo na carreira, o que na época significava uma grande dedicação à dimensão do trabalho em detrimento de outras.


Um processo depressivo silencioso vinha se instalando aos poucos, o que me fazia empreender o dobro de esforço para fazer as coisas normais do dia a dia. Isso me deixava exausta e minha saúde mental se comprometia, afetando minha vida profissional e outras esferas.


Cheguei ao ponto de não conseguir mais dar conta do básico. Algo me paralisava, meu corpo sabia que não queria mais me relacionar com o trabalho daquela forma. Me sentia uma fraude e sem ânimo para ficar me encaixando numa roupa que já não me servia mais.


Ao mesmo tempo em que tinha cada vez mais consciência de que não desejava mais trilhar aquele caminho profissional, era desconfortável saber que estava abaixo da média, sem conseguir sair daquela situação.


Depois de meses de muita reflexão, ouvi de uma amiga a seguinte frase: “a gente só muda quando a dor de ficar é maior do que a dor de mudar”. Aquelas palavras fizeram sentido para mim. Pedi para sair. Parei. Fui me cuidar, me conhecer melhor e buscar compreender quais eram os novos significados de sucesso que estavam emergindo em mim.


Durante esta jornada de autoconhecimento, outras perguntas também mexeram comigo: Qual o tamanho do TER necessário para suprir o meu SER? O que é suficiência para mim? Qual trabalho é a expressão da minha ESSÊNCIA? Qual ESTILO DE VIDA tem coerência para mim neste momento?


As respostas a estas e outras perguntas são princípios norteadoras na minha vida até hoje. Mudei meu rumo, entendi que meu novo parâmetro de sucesso seria pautado em liberdade, equilíbrio e coerência.


  • Liberdade para escolher fazer o que quiser, o quanto quiser e com quem quiser trabalhar e me relacionar.

  • Equilíbrio para saber se estou harmonizando todas as dimensões da vida, sem focar numa em detrimento de outra e sem me obrigar a tirar nota 10 em tudo.

  • Coerência para saber se minhas escolhas refletem na prática o que realmente acredito.


Olhando para trás, hoje percebo que há 8 anos fiz uma “expansão de vida e trabalho” e não uma simples “transição de carreira”. Sigo meu caminho, me permitindo novas descobertas e significados todos os dias.”


O relato da Fernanda é um exemplo vivo de um movimento que vem acontecendo de forma lenta, porém consistente, há alguns anos: o de ressignificação dos critérios de sucesso e a mudança de paradigmas no mundo do trabalho.


A Revolução Industrial trouxe mais que uma mudança na forma de produção: ela definiu um padrão de se viver em sociedade. O pensador, escritor e futurista norte-americano Alvin Toffler, em seu livro “The Third Wave”, lembra-nos que o industrialismo trouxe uma nova arquitetura para a civilização e nos transformou numa sociedade cujo eixo essencial é o consumo.


Isso impactou todos os aspectos da vida humana: a forma como trabalhamos, vivemos, pensamos, nos divertimos, nos relacionamos e até mesmo a forma como se constitui nossa identidade.


O significado do que é sucesso se padronizou: ter uma carreira bem-sucedida, de longos anos numa organização, ininterruptamente subindo na escala hierárquica. Isso traria, sem duvida, dinheiro, mas também um lugar de status, distinção e pertencimento. Qualquer coisa diferente disso era sequer cogitada.


No entanto, esse modo de vida vem dando sinais de exaustão. Se compararmos a tempos não tão distantes na história da humanidade, o mundo nunca teve um patamar de relativa estabilidade econômica e melhoria material. No entanto, temos hoje as maiores taxas de depressão, ansiedade e suicídios. O padrão atual de consumo da humanidade se sustenta às custas de falta de saúde mental e física e da exaustão também dos recursos do planeta.


Uma nova tração de mudança vem se estabelecendo, potencializada por dois impulsos transformadores: a Revolução Digital, que possibilita o acesso a bens e serviços, e a chegada de uma nova consciência, fortalecida em especial pelas novas gerações.


Um estudo da McKinsey & Company de 2018 aponta para a maneira diferente com que se entende, por exemplo, o consumo a partir dessa nova visão de mundo:


“o consumo visto como acesso (e não como posse); o consumo como uma expressão da identidade individual; e o consumo baseado na ética. (...) A constatação de que essa mudança de geração ocorre ao mesmo tempo em que acontecem avanços tecnológicos denota uma transformação no consumo que atravessa todas as camadas socioeconômicas e vai além da própria geração Z (...) de tal maneira que influencia todas as gerações, permeando toda a pirâmide demográfica."

Todos esses fatores econômicos, políticos, sociais e geracionais impactam diretamente nas escolhas individuais. O modelo de sucesso aprendido parece não fazer mais tanto sentido para muitas pessoas.


Uma nova forma de medir sucesso, para além de salário de cargo, tem incluído saúde física, mental e emocional, tempo livre, impacto, sentido e significado no trabalho, gostar do que se faz.


A subida acelerada na escalada hierárquica das organizações deixa de ser a preferência de todos. Um artigo do The New York Times de 2003 conceitua esse movimento como “opt-out”, inicialmente começado por mulheres de altíssima formação e qualificação, no auge de suas carreiras, optando por um outro modo de vida: menos frenético, mais caseiro, com espaço para cuidar de si e dos filhos.


O artigo relata, no entanto, que o modelo de trabalho atual só oferece dois caminhos: ou continua a subida hierárquica ou sai (daí o termo “opt-out”: optar por sair). Não há espaço para a média. E isso traz grande sofrimento para quem simplesmente está bem onde está, uma vez que essas pessoas são facilmente rotuladas como não ambiciosas ou até mesmo desqualificadas.


Em um dos workshops que facilito como consultora em desenvolvimento humano e organizacional com lideranças, um dos diálogos foi a respeito de fatos na vida pessoal e profissional que moldaram os participantes enquanto líderes.


Um deles relatou que seu liderado tinha altíssimo desempenho, estando pronto para ser o seu sucessor. Quando recebeu a notícia de que seria promovido, o liderado ficou desconcertado. Ele não queria subir de cargo. Amava o que fazia e aquela posição era suficiente para ele. O líder não soube como lidar com a situação.


Apesar de todas as mudanças em curso e relatadas aqui, as organizações, o mundo do trabalho e a sociedade como um todo não estão preparados para lidar com a suficiência.


A lógica do “mais é melhor” não dá espaço sequer à reflexão quanto a isso, que dirá para uma opção concreta de não seguir o modelo conhecido de sucesso. Até mesmo pessoas próximas, família e amigos têm dificuldade para apoiar quem não anseia o “mais”.


Este cenário traz desafios em 3 âmbitos:


  • Para as organizações, que lidam com a quase contradição entre desenvolver pessoas para a linha sucessória em posições-chave, mas ao mesmo tempo ser capaz de acolher quem deseja estar na média e contribui positivamente com suas entregas. Nesse caso, um caminho possível é que se tenha bem claros os papéis e responsabilidades para determinada posição, transparência quanto às expectativas para tal e um sério trabalho de mapeamento de perfil acompanhado de desenvolvimento sucessório.


  • Para os líderes, que precisam compreender o contexto de mundo em que vivemos e como isso impacta no exercício da liderança, promovendo diálogos abertos e livres de julgamento com seus liderados;


  • Para o indivíduo, que ainda tem receio em se colocar vulnerável e aceitar que deseja um estilo de vida diferente do esperado. Procurar uma rede de apoio e conhecimento especializado para compreender suas aspirações pessoais, juntamente com as mudanças no contexto do mundo pode trazer concretude para a transição desejada.


Precisamos ressignificar o “estar na média”, tirando esse termo de um lugar depreciativo e nos abrindo para o extraordinário que existe no ordinário. Para o espetacular que existe no simples. Para a leveza de uma vida que contém espaços de pausa e respiro. Para a alegria de uma vida produtiva, sim, mas com suficiência e equilíbrio.



Bibliografia:

Bauman, Zygmynt em entrevista on line para o jornal O Globo em 26/04/2009.

McKinsey & Co., (2018). ‘True Gen’: Generation Z and its implications for companies.

The New York Time Magazine (2003). The Op-Out Revolution.

Toffler, Alvin (1980). The Third Wave.



Ana Paula C. dos Santos

Empreendedora, Coach, Facilitadora e Artista

“Amar, criar e mudar as coisas”

eusouana.art@gmail.com


Fernanda Abrantes

Coach PCC, Facilitadora de diálogos e artista

Buscando um viver autêntico para apoiar pessoas, grupos e organizações a agirem com consciência

fernanda@8dialogos.com.br


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