A arte de fazer perguntas!


"Uma pergunta não feita é uma porta não aberta"

Marilee Goldberg

Imagine uma sala grande com várias portas de cores diferentes, fechaduras diferentes, cada uma com um estilo próprio, cada porta pode dar em um lugar novo com perspectivas diferentes, cenários novos e horizontes não imaginados. Imaginou? Então, uma pergunta que não é feita é como uma porta que não é aberta. Fazer uma boa pergunta é como a escolha da porta que se quer abrir.


É interessante pensar na ideia de que tudo que existe foi inicialmente criado a partir de uma pergunta, não é mesmo?! As pequenas e grandes invenções foram, antes de mais nada, perguntas. Portas que foram abertas. O próprio Einstein tem uma frase que diz: “Se eu tivesse uma hora para resolver um problema e minha vida dependesse da solução, eu passaria os primeiros 55 minutos a determinar a pergunta certa a ser feita, uma vez que eu soubesse a questão propriamente dita, eu poderia resolver o problema em menos de cinco minutos.” Sim! Formular a pergunta certa era a premissa de Einstein e de muitos outros pesquisadores, inventores ou ganhadores de prêmios Nobel, que revelaram que o momento de suas descobertas, dito como momento “Eureka”, foram aqueles onde a pergunta “certa” foi descoberta.


Da pergunta “Como o Universo pareceria se eu estivesse percorrendo o final de um feixe luminoso na velocidade da luz?” surgiu a teoria da relatividade de Einstein. Da pergunta “Onde posso obter um bom hambúrguer na estrada?” motivou o empresário americano Ray Kroc a criar o McDonalds. A filha do Edwin Land fez a ele uma pergunta que o levou a criar a câmera Polaroid: “Por que você não pode me dar a foto que você acabou de tirar?”. Perguntar-se “Por que aquela maçã caiu na minha cabeça?” levou à física de Isaac Newton. E se Steve Jobs não tivesse se perguntado “Por que o computador tem um ventilador?” e “Como manter um computador fresco sem um ventilador?” a Apple Computer como nós conhecemos não teria sido criada. Os exemplos são muitos e muitas outras perguntas motivaram vários outros empresários, cientistas, físicos ou pessoas comuns a criarem coisas maravilhosas. As perguntas “Como resolver a crise climática?”, “Como a humanidade impacta o oceano?” ou “Podemos mudar o padrão de uso de água?” foram algumas das várias presentes nos fóruns do prêmio Nobel 2018 e muitas outras são discutidas em nosso cotidiano. Formular uma pergunta ou uma série de perguntas, criar um ambiente perguntativo sobre algo que desperte o interesse ou que nos preocupa profundamente ou, ainda, que nos levaria a aprender algo novo, são algumas das razões para que os questionamentos sejam feitos e um motivo de sobra para olharmos as perguntas como algo relevante e merecedor de nossa atenção.


Que tal refletir?

Quanto tempo você tem investido para formular a pergunta certa? Que importância tem as perguntas para você?



ONDE TUDO COMEÇA!

Não daria para falarmos de perguntas sem considerarmos nossos primeiros anos de vida. Mais especificamente no nosso primeiro setênio (do zero aos sete anos de vida), quando estamos na fase de descobertas, de aprendizados. Há quem diga que as crianças de certa idade são crianças “chatas”, pois perguntam tudo. Fazem uma pergunta atrás da outra e é preciso ter paciência. Mas os questionamentos começam muito antes. Nascemos com a característica de descobrir o mundo ao redor. Derrubamos algo que está em cima da mesa, por exemplo, porque queremos saber o que irá acontecer. Aí a mãe fala: “não derruba” e a criança faz o quê? Derruba novamente e derruba de novo. Colocamos o dedo na tomada, pois ali está o desconhecido; tem um buraquinho e queremos saber o que existe lá dentro; jogamos pedras no vidro, pois faz barulho. O que será que acontece se eu jogar...? Estes são movimentos de aprendizado e sinapses que o cérebro da criança faz. Como se as perguntas fossem: “O que acontece se eu derrubar novamente? E de novo? E de novo? E ah, só mais uma vez?”. São mais de 700 a 1000 novas conexões sinápticas por segundo, por isso a primeira infância está muito relacionada ao brincar, à imaginação, às possibilidades. Isso faz com que as crianças sejam consideradas “inovadoras originais do mundo”. São nossos grandes cientistas — elas empiricamente questionam o mundo o tempo todo e não possuem pressupostos ou pré-julgamentos que as fazem parar. O pai de uma amiga já dizia “uma folha em branco” e a cada nova descoberta, uma nova pincelada vai aparecendo. Ao longo do tempo, o contexto em que estamos inseridos vai nos trazendo para uma realidade onde os questionamentos vão deixando de ser possíveis. Por exemplo: quantas perguntas em provas você já respondeu sobre: “procure a pergunta correta para:?”.


Confesso que não me lembro de ter vivido nenhuma prova com essa pergunta na vida e, possivelmente, você também não. Nosso sistema educacional, em sua grande parte, ainda foca mais na memorização e nas respostas prontas do que na arte de procurar novas possibilidades. Raramente somos convidados a descobrir perguntas poderosas, nem somos ensinados porque devemos fazer perguntas em primeiro lugar. Testes, exames e testes de aptidão - todos ainda reforçam o valor de respostas corretas. Até podemos reconhecer que existem algumas iniciativas de escolas que já perceberam a importância das perguntas e de um sistema educacional mais participativo, que privilegia a curiosidade e interesse do indivíduo. Contudo, infelizmente, estamos muito longe de ter esse acesso para a grande maioria da população na maior parte dos países do mundo, e estamos fadados a nos moldar a essa estranha realidade.

E NAS ORGANIZAÇÕES?

Como as organizações são a extensão do contexto em que vivemos, levamos a cultura de “ter respostas para tudo” para dentro das empresas em que atuamos. Ao longo da minha carreira trabalhando com grupos e com técnicas de resolução de problemas, tendo como base perguntas, fica claro o quanto ficamos desconfortáveis com o “não saber”.

Nos sentimos na obrigação de ter respostas para tudo e isso se intensifica quando estamos em cargo de liderança ou especialista.

Outro aspecto é o fato de a cultura de perguntar não ser regra básica, ponto de partida para a resolução de problemas, processos, relações e nas organizações de maneira geral. Não questionamos e apenas entramos e saímos de reuniões sem saber os motivos que nos levaram até lá e o que se esperava de nós. Convivemos com clientes, mas não sabemos o que eles esperam de nós ou o que eles acham das nossas campanhas ou produtos. Queremos ter melhores resultados trabalhando com outras áreas, mas não nos perguntamos “o que podemos fazer melhor para atuar em colaboração?”. Convivemos com gestores com dificuldades com suas equipes, mas as perguntas: “Qual o principal interesse da sua equipe para continuar no trabalho?”, “qual é o objetivo deles para o futuro?”, “alguém aqui tem esse tipo de problema?”, “como você reconhece quem se destaca?”, não foram feitas. Os consultores Juanita Brown David Isaacs e Eric E. Vogt, afirmaram em um artigo que “a utilidade do conhecimento que adquirimos e a eficácia das ações que tomamos dependem da qualidade das perguntas que fazemos”.


Sendo assim, da mesma forma que as perguntas dos cientistas geram novas descobertas para o mundo ou para parte dele, as boas perguntas geram para as empresas melhores resultados, mais inovações, clientes mais satisfeitos e mais próximos, entre outras coisas:

  • Favorecem a resolução de problemas complexos;

  • Ajudam a descobrir o real problema a ser resolvido;

  • Incitam a curiosidade organizacional e desafiam o status quo;

  • Desenvolvem habilidades de análise, síntese, avaliação e criação;

  • Incentivam a consideração de diferentes pontos de vista e experiências;

  • Desafiam pensando, a solução proposta, em vez de sufocá-lo, achar que já está resolvido;

  • Inspiram a aplicação do conhecimento de formas novas e inovadoras;

  • Ajudam a desenhar experiências pessoais e novas perspectivas;

  • Favorecem a colaboração entre pessoas e áreas;

  • Constroem comunidades fortes;

  • Desenvolvem líderes e equipes mais autônomas;

  • Apoiam o desenvolvimento de novos produtos e serviços;

  • Geram maior relacionamento com clientes e parceiros;

  • Estimulam novas formas de pensar e novos padrões para serem seguidos;

  • Perguntas geram mais perguntas.


A lista vai longe e com certeza não abrangeria todas as possibilidades. Em um aspecto mais profundo e com um viés socrático, Dr. Linda Elder, e o Dr. Richard Paul, autoridades no pensamento crítico, afirmam que “a qualidade de nossas vidas é determinada pela qualidade de nosso pensamento. A qualidade de nosso pensamento, por sua vez, é determinada pela qualidade de nossas perguntas, porque as perguntas são o motor, a força motriz por trás do pensamento. Sem perguntas, não temos nada para pensar. Sem questões essenciais, muitas vezes não podemos focar o nosso pensamento sobre o significativo e substancial”. Sendo assim, precisamos desenvolver nossas habilidades de questionamento para sair da superficialidade e gerar resultados mais substanciais, organizacionalmente falando.

Que tal refletir?

  • Qual relevância estamos dando para as perguntas que fazemos para gerarmos melhores resultados?

  • Qual incentivo você tem oferecido às perguntas feitas pelas crianças?

  • O ambiente em que você está convivendo favorece as perguntas?

  • Como você tem usado as perguntas no seu ambiente de trabalho?


MAS O QUE FAZ UMA PERGUNTA SER PODEROSA?

Perguntar nos serve para muitos propósitos, isso já falamos, mas será que todas as perguntas são iguais? Existem muitos tipos de perguntas com estruturas diferentes e propósitos ou intenções diferentes. Compreender as diferenças entre uma pergunta exploratória e uma imaginativa, por exemplo, pode ajudar na capacidade de compreensão, criação de estratégias ou tomada de ações específicas e mais efetivas. Podemos falar a respeito da estrutura das perguntas: se é uma pergunta aberta, fechada ou de escala. “Como foi seu dia?”, “Qual sua cor favorita?”, “Que tipo de comida você mais gosta?” ou “Quais seriam os melhores resultados se tomássemos essa ação?”, são exemplos de perguntas que chamamos de perguntas abertas - aquelas que oferecem, pra quem responde, muita liberdade para decidir como responder. Pensar que as perguntas podem começar com O que? Como? Onde? Quando? De que forma? Quem? Por que? pode ajudar a estruturar uma boa pergunta aberta. Já ao contrário, seria uma pergunta fechada aquela que restringe as possíveis respostas, como: “Quantas pessoas serão afetadas com essa decisão?”, “Você concorda com essa decisão?”, “Onde você estava às 18h ontem?”. Uma outra estrutura de perguntas que ajuda a ter maior entendimento do que um simples “sim” ou “não” para uma resposta são as perguntas de escala. Elas oferecem uma escala, por exemplo: de 1 a 10, moderado, frequente, muito frequente ou nunca. Alguns exemplos: de 1 a 10 qual a dor que você sente? De 1 a 10 como você se sente em relação a essa situação sendo 10 muito mal? Quando iniciamos os trabalhos com grupos e o exercício das perguntas abertas e fechadas, percebemos que as pessoas possuem uma tendência de achar que a “melhor” pergunta é a de estrutura aberta. No entanto, eu sempre digo que uma pergunta fechada também pode ser muito poderosa, pois ela pode ajudar a eliminar os pressupostos já estabelecidos por você e que podem impedir de abrir novas portas e fazer novas perguntas. Perguntas como: Você quis dizer isso? Entendi correto aquilo? Quer seguir por esse caminho ou aquele? são poderosas se utilizadas no momento e com a intenção certa.


Numa perspectiva mais completa sobre as intenções e objetivos das perguntas, podemos elencar outros exemplos: “Como você está se sentindo em deixar esse emprego?” ou “Qual sentimento isso gera?” ou “Como isso te afeta emocionalmente?” são perguntas que refletem e encorajam o compartilhamento de sentimento. São as chamadas pergunta af