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IA: uma reflexão sobre Educação Corporativa e Processos de Aprendizagem

Foto do escritor: Michele Crevelaro
Michele Crevelaro
6 de ago.
4 min de leitura

Atualizado: 7 de ago.


Hoje, 06 de agosto, é o Dia Nacional dos Profissionais da Educação, e eu saí de um evento de RH sobre inteligência artificial pensando bem menos em tecnologia do que eu imaginava.


Fui com minha sócia, Fernanda Abrantes, e, ao longo da manhã, ouvimos vários palestrantes falando sobre tendências, dados, projeções e caminhos para o futuro do RH. Mudava a cor do slide, mudava o logotipo, mudava o estilo de quem falava, mas, em boa parte do tempo, era como assistir à mesma apresentação repetida. Percentual aqui, curva subindo ali, gráficos muitas informações objetivas. Confesso que foi impossível não lembrar do clássico Como Mentir com Estatística, de Darrell Huff.


E olha que não tenho nada contra a estatística. Sou pesquisadora, bolsista CAPES, e sei o quanto dados bem trabalhados importam para produzir conhecimento e sustentar decisões. O problema nunca esteve no número em si. Está no que escolhemos mostrar por meio dele, no que fica de fora e, principalmente, na história que construímos para explicá-lo.


E uma das histórias que mais me incomodaram hoje foi justamente a que diz respeito à educação corporativa e ao processo de aprendizagem. A ideia de que a IA vai tornar a aprendizagem mais rápida, personalizada, mensurável e eficiente é um fato. Tudo isso é possível, real e, em muitos aspectos, até desejável.


A IA constrói trilhas individualizadas, adapta conteúdos ao ritmo de cada pessoa, recomenda materiais, oferece devolutivas imediatas, identifica lacunas de conhecimento e amplia o acesso à formação. Fiquei com uma pergunta simples: será que isso, sozinho, já é educação?


E, como falamos de IA, é claro que o apocalipse vem junto. O primeiro anúncio foi o de que a inteligência artificial diminuirá os postos de trabalho em RH, a área de tecnologia assumirá processos que hoje pertencem à gestão de pessoas e os gestores precisarão aprender a desenvolver e gerenciar agentes. Afinal, agentes não reclamam, não dormem e não tiram férias.


Sim, isso foi dito.


Entre um slide e outro, apareceu também a ideia de que o resultado deve estar acima de tudo até mesmo de certos filtros éticos e morais que, na visão apresentada, poderiam atrasar o retorno financeiro.


Em outro momento, surgiu a proposta de escolher instrutores a partir das notas dadas pelos participantes e remunerá-los com base nessas avaliações.

Fiquei pensando no que um professor precisaria fazer em sala para receber uma boa nota.


Ensinar? Provocar? Desafiar? Criar desconfortos necessários ao processo de aprendizagem? Ou simplesmente entregar uma experiência agradável, com algumas risadas?


É claro que é possível provocar e, ao mesmo tempo, ser leve. Falamos muito sobre isso na Eight: criamos espaços de profundidade com leveza.

Porém, o modelo apresentado aponta para o risco de uma espécie de uberização da educação: uma lógica em que o valor de quem ensina passa a ser medido pela satisfação imediata de quem consome a experiência.


Mas aprender nem sempre é confortável. Algumas aprendizagens exigem silêncio, elaboração, confronto com as próprias certezas e abertura para reconhecer que talvez não saibamos tanto quanto imaginávamos.


Em um contexto no qual quase tudo precisa se transformar em experiência, espetáculo e alta performance, torna-se cada vez mais difícil diferenciar aprendizagem de atuação performática.


Desde que comecei a atuar em RH, a educação corporativa se apoia em dados: adesão, frequência, conclusão, satisfação, aplicação prática, indicadores de desempenho e retorno sobre o investimento. Isso importa, e muito. Precisamos dessas informações para avaliar escolhas, corrigir rotas e entender o que uma iniciativa de desenvolvimento realmente gerou. Mas nenhuma métrica, sozinha, conta a história inteira de uma aprendizagem.


Na minha experiência nessa área, a nota que alguém dá ao final de um treinamento não revela se aquilo mudará uma prática de liderança. O número de acessos a uma plataforma não mostra se houve reflexão. Uma trilha concluída não significa, automaticamente, conhecimento incorporado. E responder rapidamente a uma atividade não diz nada sobre o quanto a pessoa elaborou aquilo que aprendeu.


Um dado bem utilizado não deveria encerrar a conversa; ao contrário, deveria abri-la. Deveria nos fazer perguntar o que aquilo revela, o que não consegue mostrar e que outras hipóteses cabem ali. O problema nunca foi medir. O problema começa quando aquilo que conseguimos medir passa a ser tratado como se fosse a experiência educativa inteira.


Quanto espaço abrimos para rodas de conversa que aprofundem os processos de aprendizagem, acolham dores coletivas e permitam nomear medos comuns? É isso que faz a mudança acontecer. As pessoas querem ser ouvidas, acolhidas e compreendidas.


Para não nos esquecermos: o ser humano aprende na troca, na interação. É na relação com o outro que o conhecimento se consolida, passa a compor o repertório de uma organização e pode, de fato, gerar mudanças reais.

Ao final do evento, ficou ainda mais evidente aquilo em que acredito: a inteligência artificial apoia a aprendizagem, mas nunca substituirá o encontro.


Ah, e, para terminar, preciso agradecer à Fernanda, que pacientemente me ouviu falar sobre esse tema durante todo o almoço. Trocamos ideias, refletimos juntas e, só assim, consegui sedimentar meu pensamento e colocar em palavras tudo aquilo que senti. 😊



Michele Crevelaro

Psicóloga e Facilitadora de diálogos


Na busca contínua por um viver coerente.

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