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Entre o reagir e o escolher: o que um término me ensinou sobre consciência e protagonismo

  • Foto do escritor: Renato Santos
    Renato Santos
  • há 4 horas
  • 3 min de leitura

Existem momentos na vida que não pedem teoria. Pedem consciência e presença.


O término de um relacionamento importante é um desses momentos. Ele não acontece só na história — acontece no corpo, nas emoções, nos pensamentos que insistem em voltar, nos gatilhos inesperados que surgem no meio de um dia comum.


No final do ano passado, vivi um término que, como tantos outros, trouxe junto uma mistura intensa de sentimentos e, em alguns momentos, uma vontade quase automática de aliviar o desconforto a qualquer custo.


Mas foi justamente nesse lugar que algo diferente aconteceu.


O ponto de escolha: reagir ou responder?



Ao longo da minha jornada, tenho trabalhado com uma distinção que parece simples, mas que na prática é profundamente desafiadora: a diferença entre viver abaixo da linha: reativo, automático, centrado na autoproteção e acima da linha: consciente, responsável, conectado ao todo, refletindo sobre a sua contribuição nos processos que vive.


E, sendo muito honesto, nos primeiros momentos do término, tudo em mim me puxava para baixo da linha. Fui inundado de emoções: raiva, desconfiança, tristeza, frustração e ao mesmo tempo, existia dentro de mim um lugar muito convidativo: o da vítima. O corpo buscava alívio e as emoções pediam reação imediata.


Mas havia também um espaço — pequeno, mas presente — onde eu podia observar tudo isso acontecendo. E é nesse espaço que mora a liberdade.


Rollo May, psicólogo existencialista, diz que `a liberdade humana envolve nossa capacidade de pausar entre o estímulo e a resposta`.


Uma pergunta que me ajudou muito a trazer consciência e autorresponsabilidade para o processo foi: o que eu poderia ter feito diferente para que as coisas não chegassem até aqui? 


E descobrir que existiam várias coisas que eu faria diferente provocou automaticamente um sentimento de empatia por mim e pelo outro.  


A antroposofia também traz uma visão que tem sido cada vez mais viva para mim: somos constituídos por três faculdades fundamentais — pensar, sentir e querer.


Em momentos desafiadores, essas três dimensões tendem a se desalinhar:


  • O pensar pode se perder em histórias e interpretações e criar uma visão distorcida da realidade;

  • O sentir pode nos inundar;

  • O querer pode reagir por impulso ou fuga motivado por gatinhos emocionais não processados.


Outra lente que me ajudou foi a distinção entre o ser humano natural e o ser humano integrado (consciente).


O ser humano natural reage ao que acontece. O que, em um término, pode significar voltar atrás, agir de forma impensada, polarizar ou tentar manter algo que já não está mais inteiro.


Em geral, parte de julgamentos contaminados por vieses que podem gerar ações mais destrutivas para si e para o todo.


O ser humano consciente não nega o que sente, mas também não se torna refém disso.


Ele amplia o olhar, considera o contexto, honra a si e ao outro, e escolhe a partir de um lugar mais íntegro. Ele age pelo discernimento claro e sabe que as decisões que toma são fruto de suas próprias escolhas, assumindo maior responsabilidade por elas. 


Em meu processo de luto quis intencionalmente agir de forma mais consciente. O que na prática, significou, muitas vezes, sustentar o desconforto.  Sentir a dor sem transformá-la imediatamente em ação. Conviver com a estranheza dos amigos que ficavam frustrados porque mesmo com muitos motivos, eu não quis compartilhar um lugar de vítima com eles. E isso, fez com que algumas vezes, eu sentisse que eles não tinham dimensão da minha dor.


Porém, quanto mais eu acolhia o que estava acontecendo, sem me identificar totalmente com aquilo, e quanto mais eu agia a partir de uma visão mais clara e processada da realidade, mais íntegro eu me sentia. 


O luto deixou de ser um lugar de sofrimento passivo e passou a ser um espaço de travessia consciente. Isso não significa que foi fácil. Foi diferente.  Houve dor, mas também houve evolução.


O que fez grande diferença para mim, não foi “controlar” o pensar, o sentir e o querer, mas reconhecê-los e integrá-los. Foi perceber, por exemplo:


  • “Estou criando uma narrativa, mas isso não é necessariamente a realidade”.  

  • “Estou sentindo raiva e medo — e isso é legítimo”;

  • “Estou com vontade de agir — mas posso escolher quando e como agir. `


Eventos pessoais desafiadores são, muitas vezes, os maiores campos de prática para aquilo que levamos para o mundo profissional. Se não, nos tornamos incoerentes.


No fim, talvez, o maior aprendizado seja este: Não é sobre evitar experiências difíceis. É sobre quem nos tornamos enquanto passamos por elas. 


Para refletir:


Diante dos desafios que você vive hoje, pessoais ou profissionais, você está reagindo ou escolhendo?

Renato Santos

Cofundador da Eight, Facilitador de Diálogos, Especialista em Desenvolvimento de Lideranças C-Level, Estratégia Organizacional e Cultura.




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