Não violência como base para a (re)conexão humana

“O frio do aço é igualmente mortal no cabo e na ponta, quer pratiquemos a violência, quer a soframos, de qualquer maneira seu contato petrifica e transforma o homem em coisa” Simone Weil

O que desconecta as pessoas? Para mim é enxergar o outro não como um ser humano mas sim como um objeto, um meio para um fim, transformá-lo em “coisa”. Essa é uma das definições de violência. O que nos separa, o que nos desumaniza. O homem é um ser relacional, portanto, seja quem sofre a violência ou quem a pratica sofre desfiguração da sua própria humanidade.

E a violência não é simplesmente o resultado direto de ações violentas, é também uma ação indireta, quase invisível, fruto da violência cultural. Violência cultural de acordo com o pesquisador noruegues Johan Galtung é a gerada pelas crenças e costumes dos seres humanos. A violência não está nas crenças e costumes em si, mas na forma como eles são utilizados para justificar ou legitimar formas de violência, sem que pareça ser errado. Essa violência se embasa em diferenças culturais, étnicas e de gênero e pode se manifestar através da arte, religião, ideologia, linguagens e ciência. No ambiente corporativo essa violência invisível. é visivel: Ameaças, opressão, esteriótipos, preconceitos, exclusões, microagressões, assédios. Todos os dias. O ano inteiro. Qual o resultado disso?

O que tenho visto, em mais de 20 anos atuando em ambientes corporativos são os frutos dessa violência organizacional: silos, divisões, imagens de inimigos, competição entre áreas e inter-áreas, burnout. Colaboradores doentes fisica, emocional e mentalmente. E quem perde com isso? Todos nós perdemos. Perde a Organização por falta de conexões que levem a colaboração e consequentemente inovaçao e criatividade, perde o indivíduo pela falta de um espaço seguro para florescer toda sua potencialidade e perde a sociedade com seres humanos incapazes de se reconhecerem como tal.

A proposta da não-violência é substituirmos a hostilidade pela hospitalidade, em vez de excluir o outro como inimigo, acolhê-lo como um hóspede. A base para esse pensamento é o príncipio de não violência "Ahimsa". Ahimsa é o respeito pela palavra, pensamento, ação e vida de todo ser humano.

O que percebo é que as pessoas tem medo disso. Elas acreditam que para vivermos em um ambiente de não-violência precisaremos ser submissos, bonzinhos, passivos. Tem receio de, ao acolher e legitimar o outro, perder sua própria autenticidade, quando, vejam só que paradoxo, a sua autenticidade se perde quando há a violência. O convite da não-violência é justamente estar disposto a acatar a nossa autenticidade. E até mesmo acatar nossa agressividade. Agressividade em sua etmologia “manifestar-se diante do outro, caminhando ao seu encontro.” Não-violência não é fuga das situações conflitantes, é um agir alinhado ao respeito por toda vida humana, inclusive a sua. Segundo Jean Marie Muller “Para ir em direção ao outro é preciso demonstrar coragem e audácia, para que ele reconheça e respeite meus direitos, esta poderá tornar-se uma relação de respeito mútuo e não mais de dominação e submissão.” É expressar autenticidade e agressividade por outros meios que não pela violência.

Como isso é possível na prática?

Para Emanuel Levinas, “Não posso encontrar-me com o outro ser humano sem de alguma maneira, iniciar uma conversa com ele.” A linguagem é um dos instrumentos de ação da não-violência. É a recusa a violência e a abertura para conexão com o outro. E essa linguagem que conecta não é a que estamos acostumados. Precisamos urgentemente transformar nossa linguagem atual.

Wendell Johson nos diz que nossa linguagem atual é animista porque foca em estabilidade e constâncias, normalidades e tipos, problemas simples e soluções definitivas. Mas no mundo complexo que vivemos precisamos de uma linguagem não-violenta que expresse processos, mudanças, relações, aprendizado. Para ele há um desencontro entre o nosso mundo dinâmico, sempre em mutação e as formas estáticas de nossa linguagem atual.

O chamado então é para co-criarmos novos comportamentos e espaços de fala e escuta que respeitem a dinâmica da vida humana dentro das Organizações e fora dela. Uma linguagem que tenha a raiz da intenção não-violenta em respeitar toda vida humana.

Quem me acompanha?

Debora Gaudencio é co-fundadora da Eight Diálogos Transformadores. Consultora em Comunicação Não Violenta em Certificação pelo Center for Nonviolent Communication. Cursou Inteligencia Emocional na Liderança pela Harvard Extension School. Professora Convidada na Fundação Dom Cabral.


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