“Isto aqui não vai dar certo...”



“Isto aqui não vai dar certo...”. Esta foi a frase que meu marido soltou do nada, no meio de um passeio a pé, atravessando o Parque da Redenção, em Porto Alegre. Eu tinha 43 anos e ele 45. Era domingo, fim de dezembro do ano de 2016 e fazia um baita calor (quem conhece o verão no Sul sabe do que estou falando...).


Ele tinha aceitado uma proposta de trabalho em uma importante empresa regional e morar em Porto Alegre era algo inegociável. Estávamos então na cidade, neste específico final de semana, para acertar os últimos detalhes da negociação.


Decidimos sair para caminhar com a intenção de nos apresentarmos a POA(2) e vice-versa. Sentir o “look and feel” da cidade, termo às vezes utilizado no mundo do marketing para descrever as principais características de um produto ou uma marca. Mas, talvez por conta do alto nível de ansiedade que estávamos, nos pareceu que as apresentações não estavam saindo como o esperado. Não sei o que POA estava achando da gente, mas nós não estávamos sentindo nenhum ponto de conexão com a cidade...


Mesmo assim seguimos com o plano que, de certo, tinha a motivação do meu marido em relação ao projeto profissional que ele havia sido convidado a realizar. Já de incerto... tinha todo o resto.


Algo que nos ajudou a dizer sim para o convite de morar em outro estado foi a ideia de nos experimentarmos fora de São Paulo, uma vez que, tanto ele quanto eu, somos os típicos paulistanos “nascidos e criados na capital” e que, de tempos em tempos, fantasiávamos sobre a possibilidade de morar em outro país. Então pensamos: “E se olhássemos para esta oportunidade como um test drive(3) para ver como nos saímos?” E lá fomos nós.


No dia 25 de janeiro de 2017 chegamos ao aeroporto Salgado Filho com duas malas, um apartamento alugado pelo Airbnb para os próximos 3 meses e vários frios no estômago.


Os desafios dele eram entregar o que esperavam no novo trabalho, já no dia seguinte à sua chegada. Conquistar o seu espaço, ganhar a confiança da equipe, dos pares, dos clientes, mesmo sentindo à sua volta o silencioso pensamento “o que este paulistano veio fazer aqui?”. E os meus? Ah... os meus desafios também eram vários....


Uma pausa na história. Já já volto a Porto Alegre, mas antes gostaria de contextualizar um pouco sobre como estava a minha vida nos dois anos anteriores a esta mudança.


Em 2015, meu marido e eu mergulhamos de cabeça em processos de fertilização in vitro: fizemos quatro tentativas, todas sem sucesso. E ao final desta exaustiva maratona emocional, chegamos à conclusão de que estávamos fazendo isto um pelo outro e que no fundo, nem ele, nem eu, desejávamos ter filhos. Tomamos então a corajosa e assustadora decisão de pararmos com tudo e nos assumirmos como um casal sem filhos.


Em paralelo, eu estava passando por um processo de transição profissional. Tinha deixado minha carreira em marketing para semear outra, na área de desenvolvimento humano e organizacional. Estava tudo caminhando lentamente, como quando estamos encerrando um ciclo e começando outro ao mesmo tempo. A imagem que faço deste momento é a de alguém dentro do trem, olhando para a estação. Na estação está tudo o que lhe é familiar. Aos poucos o trem começa a se movimentar e da janela esta pessoa acena e se despede da estação, do lugar, das pessoas, da rotina, do conhecido. À medida que o trem se move, a pessoa se atenta para o fato de que ela sabe muito pouco sobre o novo destino. Ela sabe algumas coisas que quem já esteve neste lugar, contou para ela. Ela tem uma ideia de como deve ser o novo destino e de como ela quer que as coisas não sejam a partir de agora. Mas o que ela tem mesmo à sua frente é uma folha em branco. Um bilhete sem destino.


Agora podemos voltar a Porto Alegre. No lugar do trem, subi no avião e deixei tudo o que me era familiar para trás para começar uma história do zero, numa nova cidade. Nunca tinha estado de verdade em Porto Alegre, foram duas ou três vezes a trabalho, naquele esquema aeroporto-hotel-aeroporto. Não conhecia nada, ninguém. Para não dizer que não conhecia ninguém, quando trabalhei na Abril fiquei amiga de um cara, divertidíssimo, que se mudou para o Sul porque casou com uma gaúcha. Pois bem. Meu marido e eu conhecíamos este casal, apesar de não os vermos há tempos.


A primeira coisa que pensei foi que precisava criar uma rotina para mim. Como eu iria conhecer pessoas, ter meus compromissos e não ficar à deriva esperando o meu marido chegar em casa para então minha vida começar?


Decidi me inscrever numa formação de quase dois anos na minha nova área de atuação. O curso é muito renomado e colegas meus de São Paulo já tinham feito e recomendado. E como não há coincidências nesta vida, a base desta associação é em Porto Alegre e lá estava eu, conhecendo pessoas com interesses semelhantes aos meus, com temas para estudar, trabalhos em grupo... Parece que eu estava começando a ter uma rotina para chamar de minha! Ah! E na época eu ainda não sabia, mas junto com a nova rotina, estava também ganhando um grupo de amigos muito queridos que me acompanhariam em toda a minha jornada(4).


Mesmo assim, os primeiros quatro, cinco meses foram os mais difíceis. Me sentia muito sozinha... Via amigas fazendo happy hours nos vários barzinhos charmosos espalhados pela cidade e morria de saudades das minhas.


Lembram do casal que mencionei um pouco acima? Pois bem, num determinado dia ela me convidou para sair. Queria me apresentar uma amiga sua de infância. Lá fomos nós, num dos barzinhos charmosos, elas duas e eu.


A relação delas era como a minha com as minhas amigas: amizade de uma vida toda, com mil momentos compartilhados e histórias para relembrar. Claro que naquela noite lembrei das minhas amigas e deu um aperto no peito, mas naquele momento agradeci enormemente por estas duas mulheres estarem abrindo espaço na amizade delas para eu entrar. Pedi licença e com jeitinho, entrei. A partir daí, nossos vínculos começaram a ser construídos. Começamos a ter nossas próprias histórias e lembranças. Obrigada, gurias, vocês nem sabem o quanto me ajudaram!


Outra decisão que tomei foi não ficar comparando Porto Alegre a São Paulo. Se eu estava indo morar nesta nova cidade, era para descobrir as coisas boas que ela tinha a oferecer. Logo na primeira semana lá fui eu, imbuída do espírito de uma exploradora, conhecer cada canto da cidade. Fiz disto também uma rotina.


O primeiro lugar que fui foi ao centro, conhecer o mercado público. Acho que porque cresci passeando pelo centro de São Paulo, tenho um prazer enorme neste tipo de programa. E não deu outra: foi só eu entrar no mercado público de Porto Alegre, ver o colorido das barracas, sentir o cheiro das frutas e dos embutidos, ouvir aquele burburinho dos vendedores conversando com os clientes que me senti em casa pela primeira vez.


Depois do centro vieram as expedições aos bairros, às praças e à maravilhosa orla do Guaíba. Cada canto da cidade me encantava. Meu marido virou um exímio explorador comigo e começamos a eleger os restaurantes preferidos, o hamburguer mais gostoso, o sorvete mais cremoso, o parque mais bonito. Além da cidade, passamos a explorar também o estado do Rio Grande do Sul e a maravilhosa serra gaúcha. Cada vez mais me sentia bem, em casa. Com o tempo descobri as mil e uma maravilhas que é morar numa cidade com mais mobilidade, menos foco no consumo e mais possibilidades ao ar livre.


Por falar nisso, aqui vale um destaque especial para uma praça que ficava perto de casa: a praça da Encol, como ela é popularmente conhecida. Naquele início mais difícil, foi ela que segurou a minha onda. Todos os dias eu ia até esta praça para correr ou caminhar. Às vezes estendia uma canga e fazia um bom alongamento. Depois descobri que tinham aulas de ioga gratuitas todas as sextas de manhã. Esta praça foi por muito tempo minha fiel escudeira, me ajudando a cuidar do meu bem-estar físico e mental.


Mas foi em Porto Alegre que meu marido e eu iniciamos a jornada do que seria a vida de um casal sem filhos. Foi graças a estarmos apenas nós dois, juntos todo o tempo, afastados de tudo e todos, que descobrimos um profundo nível de conexão entre nós, que começamos a desenhar o que queríamos para a nossa relação, compartilhar nossos sonhos e construir nosso novo futuro. Juntos. Só nós dois.


As caminhadas pela cidade passaram a ser momentos de trocas intensas entre nós. William Ury, o expert em negociação e mediação de conflitos de Harvard, costuma dizer que grandes decisões são tomadas quando caminhamos lado a lado. Ombro a ombro. E é assim que passei a nos ver: como uma dupla, um ao lado do outro, capazes de enfrentar qualquer desafio. Uma nova relação acabava de nascer.


Não sei quanto a você, mas acredito que há uma certa sincronicidade na vida. Quando iniciamos processos profundos de transformação, nos deparamos com situações que parecem coincidência, mas não são. É o universo conspirando para que sigamos o nosso novo caminho. Isto para dizer que, na medida em que fomos vivenciando este renascimento da nossa relação, aquele casal de amigos do início da história nos deu um grande e lindo presente: nos convidou para sermos padrinhos do Antônio, o filho tão desejado por eles, que acabava de chegar ao mundo depois dele mesmo passar por grandes desafios.


O que parecia que não ia dar certo se mostrou uma profunda e transformadora experiência de vida. Libertadora, inspiradora e de intensa conexão – eu comigo mesma, eu com o meu marido, eu com Porto Alegre, ampliando minhas fronteiras com o mundo. Saio desta experiência mais madura, mais conectada com os meus valores e tendo tido a oportunidade de desenvolver um novo jeito de olhar para o que realmente importa na vida.


Ao todo moramos cinco anos no Sul. Voltamos no início deste ano para São Paulo, movidos mais uma vez por decisões profissionais do meu marido. E então, no dia 07 de fevereiro de 2022 desembarcamos no aeroporto de Congonhas, com as mesmas duas malas, um afilhado no coração, o nosso amor ainda mais fortalecido e a certeza de que Porto Alegre será sempre o nosso lar.


Valeska Scartezini é Coach, integrante da Eight∞ Diálogos Transformadores, mediadora de conflitos e apaixonada por Porto Alegre.


Notas

(1) As fotos que ilustram este artigo foram tiradas por mim, num intervalo de poucos dias entre a primeira e a segunda. Foi numa semana do mês de junho onde é comum ter este tipo de cerração em Porto Alegre. À medida que fui escrevendo o texto foi inevitável a correlação: o mesmo lugar, o mesmo enquadramento e duas paisagens completamente diferentes. A primeira foto poderia indicar que a semana não iria dar muito certo... não? 😉

(2) POA é o código do Aeroporto Internacional de Porto Alegre – Salgado Filho e acrônimo de Porto Alegre.

(3) Test drive é o termo que as concessionárias utilizam para você experimentar o carro antes de comprar. Aquela voltinha no quarteirão, sabe?

(4) Quero deixar registrado aqui o meu profundo agradecimento e o meu carinho aos meus queridos amigos e amigas do grupo Versão Beta e as duas coordenadoras mais incríveis da SBDG!

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