Empatia: só se doa o que se tem!



Como diz Rubens Alves: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…” E parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Hoje provoco uma reflexão profunda sobre a tão conhecida palavra EMPATIA. Muito se fala sobre ela mas pouco se pratica. Mas como entender o que ela realmente significa? Foi em um retiro de Comunicação Não Violenta em Tenerife na Espanha que cheguei, milhares de quilômetros do meu habitat natural que cheguei a conclusões que gostaria de compartilhar com vocês!

Se imagine numa situação em que está com algum problema no seu relacionamento, no trabalho e que você realmente precisava conversar com alguém? Quantas vezes você procurou um conselho ou uma opinião por estar vivendo uma situação complicada e não obteve o acolhimento que esperava e ao invés de ser ouvida simplesmente virou o “ouvinte”!?

Ouvir não é algo tão fácil quanto parece, e praticar a empatia pode ser fácil na teoria,como explica o dicionário de significados, a Empatia significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação que ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo. A empatia leva as pessoas a ajudarem umas às outras. Está intimamente ligada ao altruísmo - amor e interesse pelo próximo - e à capacidade de ajudar.

Não importa a natureza da sua dificuldade, pode ser profissional ou pessoal, mas quando procura alguém para pedir conselhos você espera ser ouvido e receber bons conselhos, e que ao abrir seu coração para essa pessoa, você teria no mínimo, uma escuta empática. Mas, nem sempre isso acontece! A pessoa começa a te dar conselhos, dizer que você precisa fazer determinadas coisas, ou até começou a falar da história dele! Com certeza você já deve ter passado por isso, se não passou, você é um grande sortudo!

Mas a minha provocação vai além, e te pergunto: quando foi que você deu algum tipo de conselho para alguém? Se uma pessoa veio procurar para contar alguma dor, sobre algo que estava difícil para ela suportar sozinha e você ficou com pena ou você disse que não era para ela se preocupar, que não era culpada, ou você indicou que ela fez o seu melhor e que isso não é nada, acontece com todo mundo ! Ou ainda, você começou a contar a sua história quando a pessoa veio contar sobre a dor dela!

Bem, eu posso dizer que passei por essas situações inúmeras vezes! Até porque a vida é cheia de situações parecidas como essas e a gente oferece aquilo que acreditamos ser empatia, não a verdadeira, mas a da linguagem comum, que é quando dizemos que estamos ouvindo a pessoa, quando na verdade, não estamos suficientemente “vazios” para ouvir.

Se colocar num lugar de conselheiro, educador, contando histórias como Storytellers ou com dó, ou com simpatia dizendo exatamente com o outro se sente e até fazendo perguntas para saciar sua própria curiosidade, esse é o lugar onde a empatia não acontece. Porque nela se fala de uma escuta muito carregada, de uma escuta cheia.

A empatia acontece quando a gente se esvazia de tudo isso, quando a gente consegue se posicionar e se esvazia de tudo, e não entra num lugar de julgamento, do não conselho e da não previsão. Quando estou com o meu ouvido totalmente dedicado para o outro, para ouvir o que o outro tem para falar para mim. E eu vejo este lugar como sagrado! Pois quando alguém vem te procurar para contar uma dor ou mesmo um motivo de felicidade, ela está compartilhando com você, a vida dela! E encaro como um presente!

Mas você deve estar se perguntando: Mas como vou ouvir e não falar nada? Será que vai ressoar? A disponibilidade de se colocar a disposição de alguém que te procura precisa ser cuidada, e perceber o que essa pessoa gostaria que você devolvesse para ela: uma reflexão, uma ressonância de sentimentos ou até um conselho. É importante perguntar se ela realmente quer um conselho, muitas vezes a gente acaba dando sem ela pedir.

A empatia também pode acontecer no silêncio, quando você está 100% conectado de corpo e alma com aquilo que o outro está te trazendo. Não é só escutar com o racional e sim com o corpo todo, de coração para coração, é onde realmente a empatia acontece. Essa troca de energia só é possível quando existe a coragem para se abrir a vulnerabilidade, tanto da pessoa que fala quanto da pessoa que escuta. A troca não é só daquele que fala e sim de quem escuta, como numa alquimia, tudo se mistura! Essa alquimia te coloca num lugar muito especial.

Você já sentiu essa empatia com alguém? Alguém que você pudesse se sentir mais confortável e ao mesmo tempo vulnerável e que pudesse abrir seu coração sem pensar se a pessoa estava te julgando ou te dando a solução? Só te ouvindo e acolhendo. Você já viveu isso na sua vida?

A empatia é de dentro para fora, ela é do seu coração para o coração do outro, vem de um lugar sensível. Por isso que quando estamos em muito sofrimento, não podemos oferecer empatia para alguém. Machucado você não terá discernimento para ajudar outra pessoa que esteja no mesmo processo que você passou. Você não conseguirá entrar nesse lugar e ficar fora do julgamento, ou não querer o que você faria e condenar de alguma forma. É importante dar tempo ao tempo, para ter recursos internos para oferecer empatia para alguém. Não conseguimos doar o que não temos.

Pense numa metáfora, onde você está com essa pessoa ao seu lado olhando para um grande lago, com uma água bem translúcida e nele consiga ver a imagem de vocês dois refletidos na água, em que você e ele estão sobrepostos na reflexão da imagem e na alma. Essa imagem é o exemplo perfeito de empatia.

Enfim, a empatia não é algo que se dá para outra pessoa, mas sim, um espaço que a gente entra junto, num olhar que, ao mesmo tempo que eu dou eu recebo e vice-versa, muda algo para pessoa que é escutada e algo em quem escuta. Esse é o lugar da verdadeira empatia.

Não é algo simples de ser feita, precisa exercitar. É uma escuta sem agenda, é só sobre tentar compreender o outro em você e se conectar com que está vivo em você enquanto está escutando e oferecer a sua escuta genuína. O lugar do vazio curioso, interessado e verdadeiro, é aí que a empatia acontece.

E quando ela não acontece, é muito difícil chegar no coração do outro e no seu também. Se você não entra nesse lugar, seja nos relacionamentos amorosos, familiares ou profissionais, você não entra no coração das pessoas. Por isso é importante exercitar esse lugar. Nem sempre haverá experiências boas ou simples, pode ser que se tornem complexas, mas nem por isso você deve desistir delas. Praticar a empatia é um exercício diário e precisa que seja retomado dia a dia para aprender a lidar com ele. Deixo aqui uma provocação para que você exercite sua empatia, qual foi a última vez que você praticou sua empatia?

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