E quando o propósito não vem?!

A jornada de uma buscadora que aprendeu a desfrutar a caminhada.

Por Valeska Scartezini

Dezembro de 2014. Foi quando voluntariamente me despedi da minha equipe, meus pares, meu líder e das pessoas que trabalharam comigo por quase 7 anos. Foi quando deixei de atuar no segmento de educação. Foi quando me despedi da minha posição como Diretora de Marketing. Foi quando encerrei um ciclo de 21 anos no mundo corporativo, com muitos aprendizados e realizações.


Olhando assim, pode parecer que são despedidas demais, né? Pode também parecer um pouco nostálgico. Mas como todos os momentos de mudança, este foi o ápice de algo que começou antes...

Minha carreira em Marketing começou em 1997, quase que por acaso (se é que existem acasos na vida), quando entrei num programa de trainees numa grande empresa de comunicação. Antes disto, formada em Administração de Empresas, minhas andanças tinham sido por bancos de investimentos e eu estava certa de que seguiria uma carreira no mercado financeiro.


Deste encontro inesperado entre o Marketing e eu, encontrei uma carreira que me trouxe muitas realizações pessoais e profissionais, grandes alegrias, inúmeros aprendizados. Pude expressar e aprimorar minhas habilidades e descobrir outras tantas que eu ainda não sabia que tinha. Pude me relacionar com pessoas admiráveis e participar de projetos inspiradores.


Pessoalmente, me tornei independente financeiramente, viajei, morei sozinha, comprei o tão desejado carro zero quilômetro (hoje os jovens sequer almejam ter um carro!) e construí um patrimônio, tanto material, quanto de aprendizados e vivências.


Mas vamos voltar à minha última posição corporativa, aquela que mencionei no primeiro parágrafo deste texto. Trabalhei nesta empresa dos meus 35 aos quase 42 anos de idade e foi uma experiência incrível, de total expressão do meu ser. Se você conhece ou já ouviu falar dos arquétipos da Antroposofia, um deles fala sobre as pontes que ligam o indivíduo a organização. Eu estava ligada àquela empresa pela ponte da conexão, ou seja, me sentia bem no ambiente da empresa, encontrando espaço para manifestar o meu sentir, a minha essência. Junto com a minha equipe sentia que estávamos fazendo o trabalho mais lindo e mais impactante do mundo. Estou falando de motivação, comunicação, liderança e outros aspectos da mesma natureza.


Em dezembro de 2014 faltava pouco mais de 01 mês para eu completar 42 anos.

Um pouco antes, tive uma crise existencial daquelas dignas de se escrever um livro e foi quando comecei a me questionar qual seria o meu próximo passo profissional.

Não que eu estivesse infeliz atuando na área de Marketing. Ao contrário, adorava o que eu fazia, as pessoas com quem eu trabalhava e admirava a empresa que eu estava. Ao mesmo tempo, estava cansada, pois o meu trabalho ocupava praticamente todas as horas do meu dia, há anos...

Porém, quando eu olhava para frente, meu desejo era o de construir um novo caminho onde eu pudesse, além de colocar os meus talentos a serviço do mundo, encontrar um trabalho que fosse a expressão autêntica do meu ser. Queria encontrar o meu propósito!

Antes de seguirmos, preciso te alertar sobre algo importante: este texto é longo porque, para mim, foi assim que se revelou o meu processo de transição de carreira. Mas te convido a seguir comigo até o fim... Vamos nessa?


Levei o assunto para a minha terapia e investi em processos de autoconhecimento. Me questionava diariamente...

Como descobrir o meu propósito e fazer dele o meu trabalho? Como saber se encontrei o meu propósito? Quais eram os meus talentos e paixões? Em quais áreas e de que forma eu poderia usá-los?

Neste meio tempo, mudanças aconteceram na empresa que eu estava. E estas mudanças me consideravam numa posição maior do que a que eu ocupava: eu seria responsável pelas áreas de Marketing e Comercial. Apesar de ainda não ter encontrado a tão desejada resposta sobre “qual era o meu propósito”, ao me deparar com a possibilidade oferecida senti que, se eu aceitasse, iria me distanciar daquilo que começava a procurar.


Foi então que decidi sair da empresa e traçar o meu novo caminho profissional não estando mais no mundo corporativo. Esta foi uma decisão tomada em conjunto com o meu marido, já que ela teria impacto nas nossas vidas. Ele me apoiou e me incentivou durante todo o tempo (verdade seja dita, até hoje ele é o meu grande incentivador!), o que fez e faz toda a diferença.

A imagem que eu fazia, nesta época, era a de que eu estava em frente a uma grande propriedade, um campo, sem nada plantado no solo.

Meus olhos viam apenas aquela cor marrom de terra bruta, dura. O meu trabalho seria o de revolver a terra, tirar as pedras, preparar as calhas para então decidir qual semente eu iria plantar.


Decidi ir para a área de Desenvolvimento Humano e Organizacional. Esta opção me pareceu natural pois, ao longo de toda a minha carreira, fui amplamente reconhecida pela minha facilidade nas relações interpessoais, minha liderança inspiradora e coerente, minhas habilidades de comunicação e engajamento e meu olhar para o desenvolvimento das pessoas para além das posições que elas ocupavam.


No primeiro ano e meio, de 2015 a meados de 2016, fiz pouca coisa relacionada ao meu novo trabalho. Orientei minha atenção para cuidar de mim e de algumas questões pessoais.

Decidi dar espaço para fazer um detox da minha vida anterior. Deixei minha mente e meu coração se abrirem para o novo caminho.

E pensando no momento que eu estava vivendo, resolvi me conectar com pessoas que tinham passado por transições de carreira para que eu pudesse conhecer suas histórias.


Foi então que a vida me trouxe mais um acaso (risos... já falamos sobre isto, não?). Conheci uma vizinha, que morava no mesmo prédio que eu. Um belo dia, nos sentamos para conversar, pois ela própria havia feito uma transição. Ela tinha construído uma carreira muito bem sucedida na área de Recursos Humanos em grandes corporações e tinha decidido atuar por conta própria na área de Desenvolvimento Humano e Organizacional. Mais do que isto, ela (e alguns colegas de turma que fizeram a formação de coaches com ela) decidiram criar uma rede colaborativa de coaches, chamada Eight. Eles queriam ir para o mercado juntos, cocriando seus novos caminhos profissionais a partir de valores que todos partilhavam. Naquele dia ela me contou tudo. Abriu o coração, me deu os caminhos das pedras e se colocou à disposição. Me lembro que eu pensava “Puxa vida, estamos nos conhecendo hoje, estou dizendo para ela que a minha intenção é atuar na mesma área que a dela e ela está sendo tão generosa comigo.... Isto é novo para mim e eu gosto desta energia!”.


Já em meados de 2016, comecei a investir em formações na área e em paralelo, seguia a minha busca pelo meu tão almejado propósito. Os dois processos corriam em paralelo. Às vezes eles pareciam estar em total harmonia, quase que de mãos dadas. Outras vezes, minha ansiedade aumentava tanto que eu não tinha mais certeza de nada.


Entre dúvidas e dúvidas, fui seguindo. Fiz uma formação aqui. Outra acolá. Em todas elas, duas coisas em comum: tive o cuidado de escolher as que figuravam entre as melhores e descobri que os temas me encantavam. Foi neste momento que conheci os arquétipos da Antroposofia, aqueles que mencionei lá em cima. Eles faziam todo o sentido!

Comecei também a exercer o Coaching como profissão e decidi que eu iria “pensar menos” onde eu queria chegar e “seguir mais” o fluxo natural da vida.

Bom, foi no início de 2019 que aquela vizinha generosa me convidou a integrar a Eight∞ Diálogos Transformadores. Neste momento, a Eight∞ já tinha ampliado o seu escopo de atuação e se tornado uma rede que promove diálogos transformadores e não apenas Coaching. Este convite foi um presente daqueles de valor incomensurável, que uma pessoa dá de coração para a outra e que eu só fui entender do que se tratava mais para frente.


Na Eight∞ reencontrei uma querida amiga que, junto comigo, trilhou o Emerge Você, um programa de autoconhecimento para quem quer encontrar o seu propósito de vida. Também reencontrei uma amiga igualmente querida, que fez a formação de Coaching na mesma turma que eu. E ganhei novos amigos e amigas, de alma, que se mostraram tão generosos quanto a minha vizinha, desde o momento um.


Percebi que estar na Eight∞ é muito mais do que estar numa rede profissional. Estamos criando um novo jeito de trabalhar, que atenda às necessidades de todos e de cada um. Vibramos prosperidade e abundância para nós e para todos os colegas que atuam na mesma área que a gente (na verdade, para todos os que vivem no planeta terra!). Estamos juntos para criar coisas incríveis e, da mesma forma, para nos apoiarmos nos momentos difíceis.

Valorizamos nossas diferenças e somamos os nossos talentos. Crescemos, aprendemos e nos inspiramos um com o outro. Compartilhamos. Nos divertimos e, também, nos desentendemos, mas o amor nos conecta novamente.

Somos fortes e vulneráveis. Dizemos que somos uma rede de afeto, pois “nós nos amamos de verdade”, como diz uma das integrantes. Tudo isto fala com a minha alma!


Estar na Eight∞ também me trouxe dinamismo e liberdade. Dinamismo porque tenho a possibilidade de participar de projetos com temas diferentes a toda a hora. Além disto, eu sempre gostei de trabalhar em grupo, então imagine um lugar com 11 pessoas tendo ideias a todo o tempo! E liberdade para eu definir o quanto do meu tempo quero destinar ao trabalho. Nesta jornada, descobri que cuidar de mim, das relações próximas a mim e desfrutar a vida é essencial para me sentir plena e feliz. São nos pequenos prazeres e nos momentos ao ar livre que me encontro verdadeiramente.


Ah... E sobre encontrar o meu propósito? Pois sabe que à medida que fui caminhando não encontrei a resposta que eu procurava. Se você já viu o filme “Sob o sol da Toscana” vai entender o que vou falar agora. Não encontrei a resposta, pelo menos não ainda e não no formato que eu esperava.


Mas hoje não me sinto mais ansiosa, já não cobro deste meu novo caminho profissional que ele seja a expressão do meu propósito. Estou feliz, honrada e realizada em fazer parte da Eight∞ Diálogos Transformadores e tenho muito orgulho do que levamos para o mundo.


Olho para trás e vejo o quanto já caminhei. Entendi que o desejo que eu tinha de encontrar o meu propósito estava se tornando mais uma obsessão e me impedindo de desfrutar a caminhada. Por tudo isto, sinto que esta experiência está me ajudando a ser a melhor versão de mim mesma, todos os dias. Humm... Seria este um propósito?!


Valeska Scartezini, integrante da Eight∞ Diálogos Transformadores é uma aquariana introspectiva e organizada que ama pedalar e estar ao ar livre e junto a natureza. Apaixonada por autoconhecimento desde sempre, já andou pelo mundo do marketing e agora está descobrindo profissionalmente o universo do desenvolvimento humano.


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