A menina medrosa que se encorajou quando entendeu que todo fim é um começo

Por Karina Colpaert

Começar a contar sobre a minha transição de carreira é voltar na adolescência e entender como foi formada, lá atrás, a minha compreensão singular da relação do ser humano com o trabalho.


Aos 13 anos meu pai fez um acordo para encerrar seu contrato na empresa na qual ocupava uma posição de Diretor Técnico. “Acordo para encerrar um ciclo” é a maneira educada que se comunica um desligamento, principalmente em posições executivas. Essa ruptura de contrato teve consequências enormes na nossa estrutura familiar. O desemprego foi vivido de forma vergonhosa pelos meus pais, que pouco falavam dele comigo e com meu irmão. Não eram necessárias as palavras para entender que estávamos vivendo uma grande crise financeira e emocional.


Neste momento, ainda tão jovem, decidi fazer psicologia e decidi que trabalharia com psicologia organizacional, sem mesmo saber exatamente o que isso significava. Certamente, era a intuição de uma jovem pisciana cheia de sonhos.


Ainda estudante de Psicologia, iniciei um estágio na área de Recursos Humanos em uma multinacional americana. Foi nela que desenvolvi toda a minha carreira, de estagiária à executiva. Depois de passar por algumas áreas de RH e conhecer mais do negócio e das pessoas, foi me dado um grande desafio. Ser o ponto focal de RH num projeto de fechamento de uma fábrica nacional, cujo objetivo era desativar a operação de uma fábrica e desligar centenas de funcionários e prestadores de serviço.


Lembro-me de receber esse projeto com muito medo e naquele dia voltei para casa e chorei muito. Era a criança ferida que chorava o desemprego do pai e de todas as consequências de um “acordo de encerramento de ciclo”. Acessar minha dor e a própria história foram combustíveis para fazer diferente, respirei fundo e decidi que faria pelos funcionários o que gostaria que tivessem feito com o meu pai. Mesmo num contexto muito desafiador, foi um projeto lindo. Decidimos anunciar para todos os funcionários um ano antes do encerramento da operação e durante este período trabalhar na preparação e capacitação dos colaboradores para um novo ciclo.


Desta vez a menina machucada, curou as feridas e aprendeu na prática que há maneiras diferentes e respeitosas de fazer “encerramentos de ciclos”. E o que mais aprendi neste contexto desafiador foi que estabelecer conexão, construir uma relação de confiança, por meio do diálogo autêntico, gera resultado. Não houve ruptura ou queda na qualidade da produção e a grande maioria dos funcionários seguiu engajado até o último dia de funcionamento da fábrica!


Corta e vamos dar um salto de 5 anos!


Estava vivendo um período muito promissor profissionalmente, ocupava uma posição de Business Partner, próxima do Negócio, onde as decisões eram tomadas, e ainda tinha a possibilidade de influenciar as pessoas de maneira positiva. Só havia um porém, o tamanho do trabalho era maior do que eu idealizava para o equilíbrio da minha vida pessoal. Tinha dois filhos pequenos e não conseguia aproveitar minha família como gostaria. Vivia um dilema, mas não sabia como sair desta situação. E aqui voltamos a minha biografia; mesmo entregando excelentes resultados, o medo do desemprego e suas consequências aceleravam meu coração.

E se eu não conseguia tomar uma decisão, a vida me mostrou o caminho da dor para tomá-la. Aos 37 anos recebi um diagnóstico de câncer de mama.

Estar diante de uma doença e da possibilidade de morte me fez olhar para a vida! Percebi que estava apenas sobrevivendo e queria mais, queria viver verdadeiramente. E a vida não era esperar pelo “sextou” e pelos 30 dias de férias, uma vez ao ano!


Meus valores pessoais, somados aos valores da empresa, que me guiaram no fechamento da fábrica, estavam presentes fortemente nesse momento pessoal tão difícil. A empresa foi maravilhosa, me afastei durante um ano e pude viver o tão famoso sabático. Mas esse sabático não era para desfrutar de uma viagem inspiracional pelo mundo, foi uma profunda viagem interna, ao meu mundo, visitando dores e amores!


Nesse percurso perdi o seio com uma mastectomia, perdi os cabelos com a quimioterapia e perdi o que mais temia perder; o medo!

O medo me preservava de abrir trilhas, sempre segui num único trilho onde as estações estavam bem definidas com local e hora marcada.

Meu plano de carreira era planejado e previsível. Mas a trilha me levaria para o desconhecido e para isso, era preciso ter coragem! Chegou a hora de mudar minha relação linear e de dependência com trabalho!


Quando curada, decidi eu mesma fazer o meu “encerramento de ciclo”! Pedi demissão, e naquele momento vivi o pensar, sentir, querer e agir integrados, com todos os meus sentidos.

Senti no arrepio do corpo, o que é ter liberdade e autonomia de escolha!

Entendi a diferença entre transição de carreira e ruptura. A transição é ato contínuo. Me preparei para isso, o que envolvia um diálogo com meu marido e filhos (mesmo que pequenos), um pulmão financeiro e o início de algo inspiracional. Neste caso, dei continuidade à formação de Coaches, curso no qual conheci meus sócios e co-fundei a Eight∞ Diálogos Transformadores. Passei a seguir minha trilha de forma coletiva e ampliar ainda mais a compreensão da relação plural do ser humano com o trabalho. E me dei conta que a qualidade do encerramento de um ciclo é diretamente proporcional à qualidade da abertura de novos ciclos.


Karina Colpaert é carioca, casada com Nuno e mãe do Pedro e do Guilherme. Psicóloga com 15 anos de experiência na área de RH. Após receber diagnóstico de câncer de mama, ter contato com os mais profundos sentimentos, quando curada fez uma transição de carreira e cofundou a Eight Diálogos Transformadores. Formou-se pela Escola de Coaches do EcoSocial e também é Consteladora Sistêmica, com especialização em Organizacional, pela Faybel – Escola do Pensamento Sistêmico. Estudiosa dos conceitos sobre Liderança Sistêmica, baseados nas abordagens da Antroposofia, da Constelação Sistêmica Organizacional, Abordagem Centrada na Pessoa e visão integrada do Ser Humano e das Organizações.

Gosta de boas conversas acompanhadas de café coado, escrever crônicas, praticar meditação e Yoga. Acredita que a arte desperta e amplia a consciência.


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