A executiva de RH que se permitiu ser (até) professora de artes - da carreira linear à multicarreira

A vida como obra de arte!

Por Fernanda Abrantes



Imagine a cena, você é uma executiva de uma grande Organização multinacional, tem tudo o que sempre sonhou na carreira: uma posição sênior, desafios importantes, uma equipe grande e qualificada, uma reputação construída durante anos de experiência corporativa, um bom salário com benefícios incríveis, enfim... tudo o que sempre almejou. Um certo dia você chega para trabalhar e percebe que simplesmente não tem mais vontade de estar ali, que não se sente mais conectada àquele lugar, àquelas pessoas, àquele ambiente, àquele tipo de trabalho... e decide simplesmente sair para uma caminhada na rua, tomar um ar, um sol, respirar, pensar. Mas você é uma pessoa extremamente ocupada, tem muitos compromissos e reuniões na agenda... como assim você quer dar uma volta na rua para tomar um ar? Não tem ar para respirar onde você está?!? A verdade é que eu sentia que não tinha e estava muito difícil aceitar esse fato. E nada foi tão de repente assim...


Venho de uma trajetória profissional linear. Nasci em Porto Alegre, estudei num dos melhores colégios católicos da cidade, fiz vestibular e passei em duas faculdades. Decidi seguir a de Administração. Fiz meu primeiro estágio logo no começo e fui efetivada 2 anos depois. Virei Analista, Coordenadora, e poucos anos mais tarde ingressei no Programa Trainee de uma grande empresa. Vim para em São Paulo no ano 2.000 para trabalhar num projeto de fusão. Três anos depois sai de onde estava e assumi uma posição gerencial de maior senioridade em uma multinacional americana.


Era bem cuidada, tinha uma boa posição, uma boa remuneração, adorava o que fazia e as pessoas com quem trabalhava. Ao final dos meus 11 anos nesta empresa comecei a me sentir desencaixada... já não me sentia tão motivada, apesar de racionalmente achar que isso não tinha o menor cabimento. Quais motivos eu teria para não me sentir feliz? Não fazia sentido. Eu tinha tudo o que meu pai sempre sonhou para mim. Era orgulho na família!


Era fato que eu já não me sentia plena. Fui percebendo pequenos sinais que revelavam que o trabalho que eu amava passou a ser um fardo. A empresa passava por um forte processo de globalização que me trazia cada vez mais regras e diretrizes para cumprir. Não encontrava mais a liberdade de criação que eu tanto valorizava. Achava que muitas das decisões da Organização já não faziam mais sentido. Porém, para me manter segura, eu tinha que mostrar que queria crescer, constar nos planos de sucessão, caso contrário me sentiria uma farsante. Como uma pessoa que gerencia o desenvolvimento de outras não quer se desenvolver? Essa pergunta cheia de auto julgamento não saia da minha cabeça. O significado de desenvolvimento não era claro para mim, achava que me desenvolver era almejar uma posição mais sênior, de maior responsabilidade, crescer na carreira e ganhar mais dinheiro. No fundo eu sabia que não queria nada disso e dava tudo para passar a vida inteira fazendo a parte que mais gostava do meu trabalho: desenvolver pessoas, transformar ambientes de trabalho e cultura organizacional. Adorava fazer isso e gostava de me dedicar à operação da empresa no Brasil. Não querer mais estar ali significava não almejar ser Diretora de RH, não desejar posições regionais, globais. Eu simplesmente não queria, mas era bem difícil entender e principalmente aceitar. Minha sensação era de fim da linha para minha carreira.


Para fugir do medo que uma decisão importante de ruptura de velhos padrões me causaria e ganhar tempo, resolvi passar por cima do que sentia e ignorar os sinais que revelavam o meu forte desejo de mudar radicalmente. Aceitei o desafio do novo, mas optei pelo caminho mais fácil, o do novo “velho”.... mudei de empresa para assumir uma posição mais sênior numa Organização similar à todas as outras que já tinha trabalhado. Escolha feita, a vida parecia promissora! Cheguei mais longe ainda, me desenvolvi na carreira, que orgulho de mim! Porém, não tinha ideia do que me esperava. O preço do novo desafio foi ainda maior, logo de cara tive sinais de que não me sentia conectada ao novo ambiente e meu desejo de romper com aquela vida só aumentava. Era sofrido, não sabia o que fazer com isso. Passava horas do meu dia devaneando sobre montar um negócio próprio e empreender. Cheguei a desenhar um projeto maluco, sem pé nem cabeça, mas que me proporcionava a sensação boa de imaginar um futuro diferente. Aquelas horas em que eu me dedicava a escrever meu plano de negócio e estudar o assunto eram meu refúgio. Só eu e meus pensamentos sendo materializados no papel. Enquanto isso, as insatisfações no trabalham só cresciam até chegar a um ponto em que ficou bem insuportável estar ali, só me fazia mal. Antes de adoecer ou enlouquecer pedi para sair. Foi um alívio!


A dor de ficar era maior do que o medo de mudar e lá fui eu, me jogar no vazio do desconhecido, um lugar inseguro, vulnerável, mas muito libertador.

Deixei para trás uma vida com a segurança e previsibilidade de um salário no final do mês, bônus no final do ano, um plano de saúde maravilhoso caso ficasse doente, uma previdência privada que me trazia conforto para pensar no futuro, um belo carro para me levar onde eu quisesse, dentre outras benesses. Troquei tudo isso para me lançar num nada, no vazio de não ter para onde ir, do não saber o que fazer, de não ser de lugar nenhum. Me tratei com carinho, me dei um tempo e fiz um ano “sabático” (ah e como é bom falar que estou num sabático... assim me sinto encaixada em alguma coisa!).


Dizem que o vazio é o berço da criação e que precisamos esvaziar bem a xícara para depois enchê-la com coisas novas. É um desafio e tanto esperar o tempo certo das coisas. Em nome da ansiedade, do medo do futuro e do meu ego quase sucumbi e voltei ao padrão anterior, mas a vida foi me dando sinais e sabedoria para saber agir de forma consciente. Hoje, mais de 6 anos depois da minha transição de vida e trabalho, me sinto vivendo uma vida autêntica. Me conheci melhor, trabalhei minha ansiedade, meus medos da escassez e minhas preocupações em relação ao futuro com ajuda de muitas pessoas importantes que cruzaram meu caminho. Hoje sei o que me realiza e satisfaz, sei o valor do meu tempo, do meu dinheiro, das relações genuínas, o prazer das coisas simples, conheço o meu propósito e meus múltiplos potenciais, talentos e possibilidades.

Atualmente me permito fazer escolhas somente a partir do que conversa com a minha essência e do que tem coerência com meus valores.

Em 2014 cursei a Escola de Coaches do EcoSocial, onde conheci meus atuais sócios e me formei Coach com base na Antroposofia (a Ciência Espiritual de Rudolf Steiner que conversa muito comigo!). Em 2015, co-fundei com meus sócios a Eight∞ Diálogos Transformadores, uma rede colaborativa de desenvolvimento humano e organizacional criada do zero e que hoje conta com clientes importantes e projetos que nos orgulham muito. Colaborei por 3 anos com o Impulso Emerge, uma rede de facilitadores a quem tenho enorme gratidão. Em 2017 fiz formação em consultoria organizacional pela Adigo, também seguindo a linha antroposófica.

Troquei o paradigma do “ter um emprego” por “ter trabalho”, e ele foi vindo aos poucos, à medida que eu me sentia mais segura de mim.

Tudo estava acontecendo bem na minha vida de descobertas de novas possibilidades profissionais. Mas o que eu não imaginava que aconteceria ainda estava por vir.


As minhas formações em Antroposofia me despertaram profundamente a vontade de ter um hobby. Alguma memória acordou dentro de mim. Na minha infância eu fazia escolinha de artes, na minha adolescência fazia bordado e tricot. Quando fiz minha transição, cheguei a flertar bastante com a fotografia que eu gosto muito. Eu tenho um impulso criativo muito forte dentro de mim e durante muitos anos o canalizei para o meu trabalho na vida executiva.


Na empresa, eu adorava ter a Comunicação Interna na minha estrutura, pois isso me dava a chance de alimentar um pouco o meu lado artista. Lembro que em geral gostava de fazer apresentações bonitas. Primeiro vinha a estética para depois vir o conteúdo. A estética sempre me inspirou para criar meus conteúdos e até hoje é assim. Eu seleciono as imagens, escolho a melhor letra, o template, etc. É assim que eu começo uma apresentação. Eu acho que tudo comunica e eu adoro tocar os sentidos das pessoas.


Em 2018 intencionei muito ter um hobby, algo que eu pudesse praticar com as minhas próprias mãos para produzir beleza. Gosto do fazer manual, artesanal. Eu queria criar coisas bonitas, só não sabia o que. Liguei as antenas, pesquisei milhões de possibilidades de cursos de arte até que um dia vi na internet umas imagens de mandalas em pedras de rio feitas com pontinhos coloridos e eu foi amor à primeira vista. Fui atrás da artista que produzia aquelas obras e vi que ela dava aulas. Bingo! Fiz uma oficina de 3 horas em março de 2018 e nunca mais parei de pintar. Aquelas 3 horas valeram por anos de terapia!

A pintura de mandalas é uma arte meditativa e sagrada pra mim. Entro num estado de presença plena e auto conexão quando estou pintando que até esqueço do mundo. Faço uma higiene mental, organizo meus pensamentos, aprendo sobre meus sentimentos. No meu silêncio criativo tenho muitas ideias e intuições para a vida e me torno uma pessoa melhor. Não sei nem explicar o que acontece, é algo mágico, sagrado, que me proporciona uma conexão profunda com a minha espiritualidade.

Em 2018 criei uma marca de artes, a Dots in a Box, para a divulgação das minhas pinturas, pois acredito que tudo deve ter uma cara, uma identidade. Em 2019 uma grande amiga me pediu para ensiná-la junto com a filha. E a aula tinha que ser leve, gostosa e descontraída, nada de curso chato. Foi assim que nasceu o 1º workshop de Dots para 8 pessoas, na varanda da minha casa, com direito a um lindo por do sol no final da tarde. Desde então já foram quase 20 turmas entre aulas presenciais e virtuais e meu instagram é seguido por mais de 19 mil pessoas no mundo inteiro.


Nunca pensei que além de ex-Executiva, Coach, Facilitadora, Consultora e Empreendedora eu também me tornaria Professora de Artes! Por que não?!

Eu posso ser tudo isso se eu quiser, todas essas versões de mim mesma podem me habitar, coexistir e integrar numa harmonia perfeita. Hoje sinto que meu trabalho pode ser hobby e meu hobby pode virar trabalho, me trazendo um viver mais autêntico.


Essa sou eu, faço tudo com muito amor e tudo o que faço é a expressão mais pura da minha essência, sem máscaras, sem rótulos, sem medo de ser feliz!


Fernanda Abrantes é mãe dos gêmeos Caio e do Rafael de 14 anos, gosta de fazer arte, é co-fundadora da Eight∞ Diálogos transformadores, adora trabalhar de forma colaborativa e acredita que a vida pode ser sempre plural.


Leia outros artigos da Fernanda sobre transição e mudança:

A arte de tomar a vida nas próprias mãos

Live and let die | Como o fundo do poço me fez morrer e voltar à vida

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