Pedalar revela muito sobre nós


Cena 1. Três ciclistas estão pedalando no mesmo sentido, um atrás do outro, numa ciclovia de duas faixas. Uma para quem vai e a outra para quem vem. Mais à frente, a ciclovia estreita por conta de um poste e só há uma faixa. O ciclista da primeira bicicleta avista alguém, vindo no sentido oposto e percebe que ele chegará antes no estreitamento de faixa. Este ciclista então reduz a velocidade e sinaliza para quem vem no outro sentido: “pode vir!”. O ciclista da segunda bicicleta, sinaliza para a bicicleta que vem atrás e, também reduz a sua velocidade. Mas o ciclista da terceira bicicleta decide ultrapassar os dois que estavam à sua frente. Não há metros suficientes para a ultrapassagem. Mesmo assim, ele avança e, nervoso, xinga os ciclistas que estavam à sua frente. Vocês devem estar imaginando que... sim, o que ultrapassou se depara com o ciclista vindo no sentido contrário. Como o espaço não permite que os dois passem, um tenta desviar do outro e os dois caem. Felizmente ninguém se machucou, mas inevitavelmente todos tiveram que parar. O que era para ser um movimento orquestrado, onde todos os ciclistas passariam pelo estreitamento da faixa sem a necessidade de parar (e muito menos sem correr o risco de se machucar!), acabou virando um caso de briga urbana.

Cena 2. Uma família está pedalando numa ciclovia de duas faixas. Uma para quem vai e a outra para quem vem. Estou me referindo a eles como uma família, pois assim imaginei, já que são um homem, uma mulher e duas crianças. Num determinado momento, a ciclovia cruza uma grande avenida e para organizar o trânsito entre carros e bicicletas, há faróis. O farol para os carros está vermelho e o para as bicicletas está verde. A família está pedalando com uma bicicleta ao lado da outra, ocupando os dois sentidos da ciclovia e impedindo a passagem dos ciclistas que vem no sentido oposto. No momento em que a família começa a atravessar a avenida, um motociclista vaza o farol vermelho. O homem da família fica muito nervoso! Seus olhos acompanham o trajeto do motociclista... Ele xinga e esbraveja. Porém, como ele está pedalando na contra mão e não está olhando para a frente, ele quase causa um acidente com os ciclistas que estavam vindo no sentido contrário. Ainda tomado pela fúria, ele xinga também os ciclistas.

Estas duas cenas aconteceram na Avenida Ipiranga, em Porto Alegre, onde pedalo todos os finais de semana com o meu marido. Pedalar é um momento de grande prazer para nós, uma rotina sagrada. Já pedalamos pela Europa, tendo a bicicleta como nosso único meio de transporte. Quando morávamos em São Paulo, pedalávamos frequentemente pelas ciclovias e ruas da cidade, percorrendo diversos bairros. Para quem conhece São Paulo, morávamos na zona sul e certa vez chegamos a pedalar até o outro lado do Rio Tietê, passando pelo Centro de Exposições Anhembi e pelo Aeroporto Campo de Marte! Também é comum colocarmos a bicicleta no carro, para pedalar em regiões mais afastadas ou mesmo levar nossas magrelas conosco em nossas viagens.

Longe de sermos ciclistas profissionais, apenas gostamos de, no nosso ritmo, pedalar. E esta é uma experiência reveladora: ao mesmo tempo frustrante e maravilhosa!

Frustrante porque, infelizmente, cenas como as descritas acima não são poucas. No geral, é incomum encontrar gentileza, bom senso e educação. O que mais vejo são pessoas que não cedem a vez para o outro. Que ocupam o espaço coletivo como se eles fossem os únicos usuários. Que andam em alta velocidade nos trechos com muito movimento ou forçam a passagem por entre as pessoas e outras bicicletas, fazendo com que os menos experientes (ou os mais distraídos) se assustem e os mais enérgicos se irritem. O que mais vejo é o indivíduo prevalecendo sobre o coletivo. E isto me dói. Muito. E além de me doer, revela uma Valeska menos amorosa, menos compreensível. Uma Valeska impaciente e que sente raiva do outro. Alguém da qual não me orgulho nada.

Viver num lugar onde a consciência do coletivo existe em harmonia com a consciência individual é muito importante para mim. Assim como ver o outro e saber que eu também sou vista. Refletir sobre qual impacto a minha ação está causando no ambiente e no outro e sentir (e aqui é sentir mesmo, com o coração!) se minha ação está a serviço do bem do coletivo ou apenas a serviço de mim mesmo.

Acabei de fazer um curso de Comunicação Não Violenta para Liderança, com o Alan Seid. Ele nos falou que CNV (esta é a abreviação para Comunicação Não Violenta) é sobre conexão. Sobre buscar a conexão conosco e com o outro, antes de partir para a solução do problema ou da situação.

Um dos exercícios que ele propôs, como uma reflexão individual, foi: “Pensem numa situação difícil ou desafiadora que vocês tenham vivenciado. Depois, escrevam quais sentimentos e necessidades estavam presentes em vocês naquele momento. E por fim, escrevam qual é a sua melhor hipótese empática a respeito dos sentimentos e necessidades da outra pessoa envolvida na situação.” Entenda-se por hipótese empática tentar identificar quais podem ser os sentimentos e necessidades que poderiam estar presentes no outro, naquele momento e, assim, sermos capazes de oferecer empatia ao outro.

Para este exercício pensei em cenas como estas que descrevi quando acima. Para a cena 1, cheguei a identificar hipóteses como: “Ele deve estar aflito pois precisa chegar logo ao seu destino”, ou “Ele não viu que íamos reduzir a velocidade ou que vinha um ciclista no sentido oposto”. E até mesmo “Ele fica tão feliz pedalando que se distraiu”. Na cena 2, pensei em hipóteses como “O homem ficou com medo que sua família fosse atingida pelo motociclista”, “Ele está preocupado com algo e não percebeu que está pedalando na contramão”, ou mesmo “Ele está pedalando na contramão, pois assim se sente mais apto caso precise proteger sua família de algo”.

Mesmo chegando a tais hipóteses, confesso que não é fácil oferecer empatia a eles. Acho que por ir de encontro a um valor caro para mim. E depois do exercício permaneci com aquela sensação inconformada. Pelo menos, consegui entender que estar consciente do outro e do espaço que ocupamos é algo valioso para mim, mas pode não ser na mesma medida para o outro.

Outro aspecto que aprendi na Mediação de Conflitos é não atribuirmos o mal comportamento diretamente a pessoa e sim, este mal comportamento é uma resposta para uma situação a qual esta pessoa foi exposta. Isto ajuda a não personificar e julgar o outro como “Ele é egoísta e mal educado” ou, “Mas que ciclista fominha!”. Porém, quando estamos diretamente envolvidos na situação, fica mais complexo fazermos tal separação. Como disse para a minha colega de trabalho e especialista em Comunicação Não Violenta, Debora Gaudencio, acho que preciso vir mais algumas encarnações...

Mas como disse lá em cima, pedalar é também uma experiência maravilhosa, cheia de significados! Lembro que um dia estávamos indo de uma cidade a outra, pelo interior da Holanda, quando cruzamos com dois casais de bicicleta. O primeiro casal estava cada um na sua bicicleta. Já outro casal.... ele pedalava uma bicicleta adaptada, que tinha uma cadeira acoplada na parte da frente e uma mulher sentada nela. Ela devia ter uma doença ou uma situação de saúde mais complicada, pois sua cabeça estava tombada para o lado e seu rosto não tinha expressão alguma. Ela estava com um cobertor cobrindo suas pernas, bem quentinha. Os três conversavam alegremente e sorriam. Fiquei emocionada com a cena que vi. Apesar das dificuldades, estas pessoas escolhiam ter seus momentos de prazer e investiam nas relações. E aquele casal estava unido.

Outro aspecto que faz o ato de pedalar ser maravilhoso é o ritmo, que te permite perceber o local onde você está, de outra forma. Até que você passe por aquele campo de lavandas demora um certo tempo. Dá para você sentir o calor do sol no seu rosto, respirar o aroma das lavandas, ouvir o cantar dos pássaros e contemplar a paisagem à sua volta. Todos os seus sentidos estão aguçados. Me lembro que num dos passeios que fizemos tive o privilégio de ver uma revoada de patos passar por cima da minha cabeça. Deu tempo para acompanhar todo o rasante daqueles patos, até eles ficarem bem pequenininhos.

Sentir-me livre e estar em contato com a natureza é também importante para mim. Me sinto feliz. Plena. E a bicicleta me possibilita me sentir assim. Nesta hora, sinto que sou o meu melhor. Irônico como a mesma experiência pode mostrar faces tão diferentes de mim mesma, não?

Ao refletir sobre isto me lembrei do artigo(1) escrito pela Michele Crevelaro, membro da Eight∞ junto comigo, com a Debora (que mencionei acima) e mais 8 pessoas incríveis. Ela começa o texto assim: “Se buscarmos o significado de sombra, encontraremos que é uma região formada pela ausência parcial de luz, proporcionada pela existência de um obstáculo. Logo, para que haja sombra, é necessário também a luz. Este conceito nos remete a dualidade humana, aquela que nos habita desde sempre, como seres imperfeitos que somos e com o livre arbítrio para fazermos nossas escolhas.”

Ela também escreve: “Precisamos internamente de luz e sombra para termos nitidez.” Uau... faz todo o sentido. É como se estas palavras me ajudassem a integrar as duas “Valeskas” que antes pareciam tão antagônicas. E me traz consciência para fazer a escolha de seguir pedalando e seguir olhando para o meu universo interior e para o outro. Respeitando o ritmo da jornada, em busca de ter mais nitidez acerca de quem sou.

Valeska Scartezini é Coach integrante da Eight∞ Diálogos Transformadores, mediadora de conflitos e apaixonada por pedalar.

(1) Clique aqui para ler na íntegra o texto “A nitidez nas escolhas” de Michele Crevelaro.

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