Qual foi a melhor decisão da sua vida?


Durante este período de isolamento social, meu marido e eu temos tentado aproveitar ao máximo a sacada do nosso apartamento. Sempre que o tempo permite, almoçamos ao ar livre e foi num destes dias que nos vimos conversando sobre a pergunta que virou o título deste texto.

Não sei dizer ao certo por que este assunto começou. Mas num determinado momento estávamos nós dois, nos olhando e refletindo sobre esta questão: Qual foi a melhor decisão da sua vida...? Minha resposta para ele foi “a melhor decisão da minha vida foi ter me casado com você”.

Estamos juntos há 14 anos e ao longo deste período construímos um projeto de vida a dois baseado em companheirismo, diálogo, admiração e confiança. Mas claro que isto não veio junto com os presentes que ganhamos no nosso casamento. Acho até que diferente de muitos casamentos, onde os anos iniciais são repletos de romantismo e curtição, para nós o começo foi bem difícil.

Nossas vidas profissionais eram nossas prioridades. Logo que casamos meu marido aceitou uma posição numa empresa americana e foi abduzido por desafios e novidades. Dois anos depois, foi a minha vez de assumir um compromisso profissional que, na época, me realizava totalmente. Eu queria fazer cada vez mais e mais, pois me sentia conectada com o propósito da empresa. Sentia uma profunda sinergia com a minha equipe e o trabalho que realizávamos.

A verdade é que meu marido e eu tínhamos muita energia para o mundo lá fora, mas quando chegávamos em casa, estávamos desconectados da nossa relação.

Junto com a agitação dos nossos trabalhos, meu sogro ficou seriamente doente e foram anos lidando com a situação. Isto esgotou emocionalmente o meu marido, que aos poucos foi se fechando no mundo dele e fomos nos distanciando cada vez mais.

Num determinado dia, estávamos sentados à mesa e disse para ele que a nossa vida não era saudável. Estávamos desconectados e eu me perguntava qual o sentido de viver uma relação daquela forma. Foi então que decidimos procurar ajuda e cada um de nós começou a fazer terapia, individualmente. E aqui quero fazer um reconhecimento. Ainda vivemos numa sociedade onde muitos homens têm preconceitos ou resistências em relação a fazer terapia. Ou vão obrigados, só para depois dizerem que de nada serviu. Mas este não é o meu marido. Uma das grandes qualidades dele é que ele é aberto ao novo e tem uma energia de vida impressionante. Ele é daquelas pessoas que sempre acredita que as coisas podem ser melhores e não mede esforços para tentar. E se ele percebe que mudar é o melhor caminho, ele muda.

As coisas foram melhorando. Acho que o mais importante é que fomos nos recompondo emocionalmente e vendo que havia uma imensidão de possibilidades a serem exploradas além das fronteiras dos nossos trabalhos. Ele e eu começamos a traçar objetivos em comum, a falar sobre ter filhos, passamos a investir mais nos momentos a dois. E como um rio, deixamos as águas agitadas para trás e seguimos nossa vida, melhor do que antes.

Foi então que a tão fatídica crise dos sete anos me pegou em cheio. Se tínhamos achado que a agitação do rio tinha sido grande, era porque não sabíamos o que estava por vir... Foi uma época onde comecei a questionar tudo na minha vida: meu trabalho, meu casamento, minhas realizações. Me sentia triste, como se eu estivesse desencaixada de mim mesma. Como se a minha vida não refletisse quem eu realmente era. Olhava para os casamentos dos nossos amigos e via apenas o que nós dois não tínhamos. O que faltava na nossa relação. Eu me sentia toda errada, queria começar a vida do zero de novo. O que começou como uma crise no casamento acabou virando uma crise existencial, das boas... Foi um período insuportável!

Claro que meu marido percebia tudo e nada do que ele fizesse parecia estar ajudando. Tentávamos conversar a respeito, mas as palavras não saíam direito e as frases não faziam o menor sentido a não ser o de nos machucar. A situação parecia não ter solução. Dentro de mim, sim, a única solução possível era romper com todas as minhas referências e isto significava romper, inclusive, com o meu casamento.

Era setembro e decidimos passar uma semana numa praia na Bahia, para descansarmos. O hotel ficava a beira mar e nosso quarto dava para um gramado que se fundia na areia. Depois do almoço descansávamos nas espreguiçadeiras embaixo das sombras dos coqueiros. Pela manhã, costumava levantar-me antes do meu marido para caminhar na praia. Era um momento sagrado.

Numa das minhas caminhadas matinais, por volta das 6h30, vivenciei uma experiência muito forte, que só fui entender todos os seus significados depois, ao trabalhar o assunto com a minha terapeuta. Entrei em contato com medos muito profundos e toda a natureza, naquela manhã, parecia estar desempenhando muito bem o seu papel: o de construir o cenário ideal. O mar estava revolto, o céu encoberto, a praia deserta, sem uma vivalma. Quanto mais eu me distanciava do hotel, mais medo eu sentia. Mesmo assim, decidi seguir em frente e lidar com aquela imensidão de emoções. Quando estava quase paralisada pelo medo, me lembrei do meu mantra da meditação transcendental e comecei a mentalizá-lo. Junto com o mantra, comecei a respirar profundamente e de forma sincronizada. A respiração foi me acalmando e o mantra, na minha cabeça, foi afastando os pensamentos difíceis. Quando o medo se foi, retornei ao hotel.

Foi depois desta experiência que, numa das noites, meu marido e eu estávamos sentados à beira da piscina e pela enésima vez começamos a falar sobre o assunto. Mas desta vez foi diferente. Conseguimos dizer um para o outro como realmente nos sentíamos. Na nossa conversa, não havia culpados, havia apenas os sentimentos mais íntimos de cada um. Foi uma conversa muito bonita e cheia de emoção. A última frase que lembro foi ele me dizer “Meu amor, eu te amo muito e faria de tudo para fazê-la feliz, mas se isto não é possível, por favor, vá e seja feliz.”

Lembra da metáfora do rio? Pois foi depois desta viagem que experimentei a calmaria que vem depois de uma volumosa e grande queda d’agua. A sensação era de que uma forte conexão havia se estabelecido entre nós depois de termos apresentado nossas verdades um para o outro. Aprendemos que é possível nos mostrarmos vulneráveis e falarmos de qualquer assunto quando há acolhimento, respeito e amor.

Foi a partir desta conexão que começamos a reestabelecer a nossa relação. Consegui me acalmar, retomei a ordem interna e o discernimento. Passei a enxergar novas perspectivas para a situação. Não me sentia mais desencaixada, agora sentia que toda a minha história fazia sentido. Entendi que a resposta estava em olhar para a minha relação com o meu marido como se ela fosse única. Reconhecendo e valorizando o que era caraterístico nosso e de mais ninguém. Quando olhei com discernimento vi que a nossa relação era feita de aspectos fundamentais para mim. A falta que eu via antes era no supérfluo.

Neste momento nasceu o “nós”. Antes era “ele e eu” ou “sua vida que encontra a minha vida”. Agora era: Que vida queremos construir juntos? Que casal queremos ser? Que relação a dois nos preenche?

No fim deste ano fomos surpreendidos com a notícia de que estávamos grávidos. Fazia tempo que não falávamos em ter filhos e não estávamos esperando, mas tendo em vista de onde estávamos vindo, esta mensagem nos pareceu um tanto quanto celestial. Fazia todo o sentido! Aceitamos com amor e aproveitamos muito as 8 semanas, tempo que a gestação durou. Nosso médico nos explicou que era muito comum o corpo interromper gestações se percebesse que algo não estava nos conformes.

Passado algum tempo, retomamos o assunto de ter filhos e decidimos tentar mais. Estávamos felizes um com o outro, experimentando o nascer de uma nova relação. A sensação era como se estivéssemos casando novamente... tipo “Agora sim! Isto sim é casar e é delicioso!”. O nascer de um filho iria coroar este momento de amor e conexão.

Como estávamos casados há muitos anos e a única gravidez espontânea que tivemos tido sido naturalmente interrompida, optamos por fazer fertilizações in vitro, ou FIVs. Importante dizer que ao longo de todos estes anos juntos fizemos os mais diversos exames. Os resultados eram sempre os mesmos: “Vocês são super saudáveis, está tudo certo com os dois, continuem tentando!” Para fazer o processo das FIVs nos submetemos a mais uma enorme bateria de exames. Tudo lindo, maravilhoso!

Fizemos quatro fertilizações em um período de um ano e pouco. Sem sucesso. Na época eu tinha 42 anos de idade e se dizem que há um relógio biológico que faz com que a mulher saiba a hora de ter filhos, o meu relógio nunca funcionou. Nunca me imaginei ou desejei ser mãe. Este assunto não estava no meu radar. Nem no radar do meu marido.

Mas conectados na energia da renovação e felizes um com o outro, fizemos das FIVs um projeto nosso. Quem conhece o processo sabe que, diariamente, a mulher toma injeções de medicamentos para fortalecer os óvulos, entre outros objetivos. São inúmeras injeções dadas na região da barriga, de medicações diferentes e em horários estabelecidos. Um processo indolor e que requer disciplina. Meu marido e eu fizemos juntos uma planilha para saber a hora e o dia de cada mediação. Por várias vezes ele aplicou as injeções em mim. Éramos verdadeiros parceiros de FIVs!

À medida que as fertilizações foram caminhando, meu marido e eu nos vimos refletindo sobre o tema “filhos” incessantemente nas nossas mentes e corações. Eu tinha dúvidas. Apesar de nunca ter desejado ser mãe, será que eu não estava equivocada? Que tipo de mulher não desejaria ter um filho? E se eu me arrependesse no futuro? E se meu marido descobrisse que ele queria muito ter um filho quando eu não pudesse mais ter um? E como seria lá na frente, nós dois, sem filhos...? Seria grande a solidão?

Ele também tinha dúvidas. E ter dúvidas não significa que não gostamos de crianças ou não as queremos perto de nós. Não é isso. É uma questão lá de dentro, quando você percebe que a maternidade ou a paternidade não ecoam com o seu ser.

Lembra da conversa na piscina do hotel na Bahia? Nós estávamos tendo várias conversas sobre o assunto, trazendo nossa verdade um para o outro, mas foi uma frase que ele me disse que nos aproximou com a mesma intensidade que aquela noite. Ele me disse assim: “Meu amor, vamos tentar quantas vezes você quiser. Eu amo você e quero viver com você. Não me importa se com filho, ou sem filho. Eu quero você!” Na hora eu olhei para ele e disse: “É mesmo? Pois eu estou fazendo isto por você... por medo de te perder e por medos que eu tenha ao pensar num futuro sem filhos.”

Depois disto, fizemos a quarta e última tentativa, que teve o mesmo resultado das outras três. A diferença é que neste momento já tínhamos a questão resolvida nos nossos corações. Lembro que em algum momento falamos que o universo estivesse, talvez, nos enviando uma mensagem.

Acontecia então um fato novo! Éramos nós decidindo não ter filhos e ansiosos por desenhar o nosso futuro, a dois, juntos. Como é uma vida de um casal que decide não ter filhos?

Como nada é por acaso, logo depois mudamos de cidade, por conta de uma oportunidade profissional. Fomos viver num local onde não conhecíamos ninguém. Da noite para o dia viramos... nós dois. Dizem que em situações assim, ou a relação vai, ou racha. Para nós foi um presente! Criamos nossa rotina e por estarmos apenas nós dois, todo o tempo, fomos percebendo que são os pequenos prazeres que nos enchem de felicidade. Pela manhã tomamos um café da manhã delicioso e saudável, do jeito que gostamos, ouvindo o “Gaúcha Atualidade”, um programa de notícias da Rádio Gaúcha. Nossos momentos ao ar livre são sagrados: fazemos atividade física na varanda do nosso apartamento e gostamos de andar a pé pela cidade inteira. Aos finais de semana, religiosamente pedalamos pela cidade e renovamos nossa energia na orla do Rio Guaíba. À noite, vamos para a cama e enquanto ele lê e eu jogo Sudoku, ele me faz cafuné até meus olhos darem cambalhota...

Saber que fomos e somos capazes de construir uma relação baseada em companheirismo, diálogo, admiração e confiança nos preenche e dá sentido à nossa vida. Hoje está claro que o foco está no “nós” que nasceu das nossas vivências e aprendizados juntos. Há muito amor envolvido, gostamos de estar ao lado um do outro, de incentivar que o outro esteja pleno e feliz e de nos apoiar nos momentos de mudanças. Olhar para a nossa história e ver o quanto crescemos e evoluímos é lindo!

Diariamente colocamos energia na nossa relação, como uma demonstração de amor e um caminho para a construção do “nós” que queremos ser. Uma relação não nasce pronta. A imagem que escolhi para ilustrar este texto fala disto. Quando fizemos 10 anos de casados, fomos a Cunha produzir, nós mesmos, nossas novas alianças, como um ato de renovação dos votos. Começamos do zero, de uma filipeta retangular de prata bruta e terminamos com elas lindas e polidas, nos nossos dedos. Quanto significado! Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas como meu pai sempre me diz: “Felicidade é prover no presente condições para lidarmos com o futuro, que é incerto”.

Sim, a melhor decisão da minha vida foi ter casado com você, meu amor.

Escrito por Valeska Scartezini, coach integrante da Eight∞ Diálogos Transformadores, casada com o Marcelo, uma aquariana apaixonada pelo autoconhecimento e, como vocês já perceberam, pelo seu marido também!

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