Derrubando muros


O preconceito parece mesmo um câncer incurável da humanidade. Senti e ainda sinto na carne o olhar desconfiado ou até agressivo das pessoas pelo fato de ter origem judaica. Não posso dizer que cresci em ambiente propriamente racista ou preconceituoso, mas sem dúvida toda a minha construção na sociedade foi cimentada pela visão da diferença como problema e não como riqueza. Já há algum tempo esta questão me incomoda. Mas foi no meu trabalho com pessoas em estado de refúgio que entrei em contato direto com toda a diversidade humana nua e profunda, e conheci o racismo estrutural, aquele que está até nas ações muito pequenas do dia a dia. Não só com negros, só que eles não têm o artifício do disfarce e este não é um mero detalhe. Nosso mundo ocidental tem sido degradante para quem não tem a pele branca. Há uma máxima que já escutei de gente de todas as idades de que não podemos dizer que o racismo está pior, afinal, já não são mais escravos. O dia em que ouvi isto vindo de alguém em torno dos 30 anos, confesso que fiquei em choque. O simples fato de uma pessoa tão jovem dizer algo assim me fez pensar o que um cidadão assim julga ser o direito de um negro, que deve dar-se por feliz por não ser mais escravo. Onde está a liberdade pela qual devem agradecer (a quem?) quando são barrados para averiguação em todo o lugar pelo simples fato de não serem brancos? Lembro-me muito bem de um dia em que fui a um daqueles encontros de final de ano em um local bastante descolado em São Paulo. Cheguei à porta quase junto com um rapaz negro. O segurança logo falou a ele: “você não pode entrar sem eu verificar sua mochila”. Enquanto ele vasculhava, eu, que estava com a minha mochila, falei que ele poderia olhar também a minha. O segurança com toda a reverência me disse sem pestanejar: “o senhor pode entrar”.

Ainda no meio corporativo, houve uma situação em que apresentei em um auditório o prêmio de destaque da área para uma moça negra. Reconheço meu ato de coragem ao mencionar ali sua luta contra o racismo em um momento e local onde este tema não era abertamente discutido. Primeiro veio alguém me perguntar se eu achava “mesmo” que existia racismo no Brasil, já que aquela funcionária estava sendo reconhecida. Pedi então que esta pessoa olhasse à volta em nosso populoso entorno e dissesse quantos outros negros via por ali, sem incluir o pessoal de limpeza. Depois escutei reclamações de que não havia sido justo. Afinal, todos sofriam na vida, não era exclusividade da pessoa negra. Foi difícil fazer entender que os problemas não são classificáveis em melhores e piores. Eu estava falando do racismo, e uma questão não precisa excluir outra.

Ali eu entendi um pouco mais a respeito do racismo estrutural. Uma população que vem gritando há séculos não parou de gritar e deve continuar. Se essa gritaria me atrapalha a vida, é sinal de que não ouvi ainda o que estão gritando. Por isso precisam falar cada vez mais alto. No caso dos refugiados, é penoso quando estou ao lado deles e sinto sua dor. Antes de serem menosprezados por terem sido escorraçados de suas casas, muitas vezes só com a roupa do corpo, para muitos deles existe ainda mais a questão da cor. Por mais que sejam cientistas ou humanistas com mestrado e experiência internacional, muitas oportunidades oferecidas para estes refugiados negros são de trabalhos braçais.

O caso da violência policial contra a população negra – não exclusiva dos Estados Unidos, tem gerado uma reação monumental nas redes sociais e em diversas cidades do mundo. É claro que muitos duvidam da autenticidade das pessoas que não são negras, e fazem suas críticas ao movimento com as gerações se acusando mutuamente. Não cabe a mim avaliar se todas as reações são genuínas, e nem tenho condições de saber muito mais a respeito. Mas talvez toda a indignação provocada possa ser um gatilho para engajar mais gente, nem que seja para parar e refletir sobre o que acontece.

Culpados somos todos na sociedade, sendo pela negação ou simplesmente pela omissão. Nas gerações anteriores só os próprios grupos em vulnerabilidade saíam para gritar. Nesta geração (e somos todos parte dela enquanto estivermos vivos) muros vão sendo derrubados e o grito se espalha para toda a humanidade. Quando todos falamos, o tema deixa o lugar do confronto e passa a buscar a integração. E é nesta hora que percebo o valor de Nelson Mandela. Seu objetivo enquanto líder não era de vingança, mas sim do restabelecimento na sociedade sul-africana do que sempre deveria ter sido o normal: todos vivendo em igualdade de condições, sem qualquer tipo de discriminação.

Não sou negro, mas acredito que somos todos gente. E não posso me esquecer de lembrar tudo o que estou aprendendo com estes meus queridos amigos negros, judeus, muçulmanos, LGBTs, mulheres, velhos, jovens, deficientes, um verdadeiro caldeirão que está fazendo com que eu aproveite o máximo dessa belíssima diversidade para tornar-me um Homo cada vez mais Sapiens.

Roberto Rotenberg é Coach, Mediador Organizacional e Facilitador de Diálogos Transformadores, co-fundador do Programa NAMOA. Apaixonado pela diversidade humana, põe intensidade em tudo o que possa provocar a inclusão de todos em busca de um mundo inovador e muito melhor.

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