Quando sonhos são interrompidos.


“Crises são oportunidades de crescimento e amadurecimento” 

Tomás Halík

Escolher o país e a cidade para realizar o sonho de aprender inglês com maior fluência foi uma tarefa que demorou meses, tudo detalhado, planilhado, dinheiro guardado e o pacote já comprado, expectativa sendo construída frente a uma nova realidade de vida que se iniciaria em pouco tempo. Esse era o cenário até cerca de um mês e meio atrás, quando o mundo começou a viver uma pandemia mundial devido ao coronavírus que gerou mudanças nos planos de milhões de pessoas.

Ninguém poderia imaginar que isso aconteceria e que as proporções seriam catastróficas para economia, sociedade e para cada indivíduo. Quem diria, ser convidado a ficar em sua própria casa confinado para não correr risco e nem colocar ninguém em risco – Uau! Cenário de filme.

Pois bem, o descrito acima é a realidade de uma secretária executiva que havia feito o planejamento de se aperfeiçoar no idioma, tinha pedido a conta do trabalho um pouco antes da crise, vinha economizando dinheiro por muito tempo e quando se sentiu preparada deu o passo rumo à compra do intercâmbio que era a concretização de um sonho de anos. Mas, tudo mudou, e ela não pôde viajar. O dinheiro que estava guardado está sendo usado para se manter aqui, já que está desempregada e com poucas perspectivas de conseguir arrumar outro trabalho rapidamente. Não preciso nem dizer que a frustação foi um sentimento que ela teve que conviver por dias e dias.

Assim como ela, você também pode ter tido seu sonho interrompido devido às circunstâncias do mundo e várias perguntas podem ter ficado no ar - O que fazer quando os sonhos são interrompidos sem aviso prévio? De que forma conviver com uma realidade que não foi a escolhida por você? E quando sua liberdade de escolha é tolhida?

Interessante foi que, no mesmo dia que conheci a história dessa jovem, lia o livro que havia sido indicação de um amigo – “Não sem esperança” - de um rabino chamado Tomás Halík, e a mesma frase que o capturou, me capturou: “a doença de uma pessoa individual como também a “doença da sociedade” – sempre é, como qualquer crise, também uma chance”.

Enquanto lia esse trecho, uma voz internamente me dizia que ele escreveu tudo isso por ser um rabino “evoluído” e que talvez sua realidade possa não ter desafios como os que milhões de brasileiros estão enfrentando, afinal qual poderia ser o sonho de um rabino? Quando o “bicho pega”, vamos combinar, olhar a oportunidade pode ser um esforço hercúleo e pouco eficaz. Não pode ser tão simples assim.

Com vergonha reconheço que esses meus primeiros pensamentos, foram completamente julgadores e preconceituosos, mas logo em seguida, veio uma outra voz que me trouxe maior ponderação e me ajudou a compreender o que essa afirmação dizia ao meu coração. Com ele latente, refleti....

Refleti sobre a minha própria vida, a minha história, e todos os desafios que também nomeio crise. Reconheci que elas são parte da vida e que não os ter, significaria já não viver. Pensei nos sonhos que não se concretizaram e os que estão sendo repensados, entrei em contato com uma dor de tê-los que ver partir ou ter que ser interrompidos sem data de retomada e concordei com o rabino quando ele afirmou que “crises são companheiros naturais da vida, são como rochas no leito de um rio que acrescentam dinamismo ao rio da vida e o tornam interessantes”.

Sim, um sonho interrompido pode ser uma crise para muitas pessoas, e obviamente que não estou dizendo que tudo é gostoso, desejado ou até pedido, mas estou dizendo que diversos lados de uma mesma situação podem ser encontrados quando existe disponibilidade no coração para enxergá-los.

A história da jovem do início desse texto não termina por aí, ela faz parte de um grupo de pessoas que corajosamente buscam soluções para seus problemas e que fazem isso de forma colaborativa, procurando enxergar outros pontos de vistas através de perguntas que são feitas a fim de encontrar soluções para seus dilemas e, no último encontro ela pode constatar que o grupo a ajudou a se colocar de forma mais aberta frente a frustação que estava sentindo.

Refletir sobre os aprendizados de ter que replanejar os sonhos, foi importante não só pra ela como também para todo o grupo - “às vezes no primeiro momento achamos que não é possível replanejar, mas podemos respirar mais para absorver e acolher a frustração, que não pode ser o foco” ponderou uma participante. Outros também confirmaram a importância de refletir sobre os aprendizados diante do fato de ter que interromper um sonho.

  • “é importante o luto, tem muita sabedoria aí”;

  • “frustação e importante para nosso crescimento, às vezes não queremos a tristeza, mas precisamos deles para nosso crescimento”;

  • “tem coisas que fogem do nosso controle, mas precisamos aprender a não focar no problema e na frustação e sim olhar acima, para o lado, para todos os lugares para encontrar esperança”.

É, quando os sonhos são interrompidos por forças que vão além do nosso desejo, muitos sentimentos são aflorados em nós. Tristeza, frustação, decepção, raiva... às vezes expressamos tudo isso, outras escondemos ou nos julgamos por tê-los, nessas horas vale lembrar o que disse Dominic Barter, um pesquisador e consultor em Comunicação Não Violenta em um dos encontros virtuais que participei “no reino dos sentimentos tudo é legítimo pois é a expressão do organismo”, do nosso organismo. É importante viver a desorientação do momento, não brigar com a realidade, fazer as pazes com tudo que está aflorado em nós, e talvez dando esse passo e reestabelecendo essa conexão com você seja possível replanejar e voltar a sonhar.

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Que tal refletir?

  • Quais sonhos foram interrompidos devido ao contexto atual?

  • Quais sentimentos estão vivos em você por ter esses sonhos interrompidos?

  • Quem poderia fazer parte da sua rede de apoio para que você pudesse expressar e acolher esses sentimentos?

  • O que você precisa para sonhar?

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Referência: Tomás Halík, Não sem esperança – o retorno da religião em tempos pós-otimistas.

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Magali Lopes é sonhadora incansável, tem pesquisado e tentado praticar a comunicação não violenta (CNV) diariamente na busca reconhecer e acolher seus sentimentos, o que tem sido um grande exercício em sua vida. Facilitadora de diálogos com base em abordagem de Comunicação consciente e métodos de resolução de problemas complexos por meio da colaboração e perguntas.

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