É de Deus, sim!

July 4, 2019

Ainda me pergunto por que muitos de nós, gays, somos, em geral, tão intensos e ousados: beijamos muito, transamos muito e, algumas vezes, expomo-nos muito mais que a média da população, nas redes sociais e fora delas. Com isso, agredimos a camada mais conservadora da sociedade.

 

Talvez seja o reflexo de uma adolescência reprimida, talvez seja pela necessidade de pertencermos integralmente a um grupo, sermos aceitos. Mas talvez seja simplesmente pela coragem de nos expressarmos livremente depois de resistirmos a tanta opressão social e colocarmos pra fora toda a alegria represada de podermos vivenciar nosso desejo, afeto e autoestima,  como uma transgressão reparadora.

 

Durante séculos nos colocaram rótulos, nos influenciaram com tantos pensamentos e crenças limitantes, feriram sim nossa autoestima e abalaram nossa confiança.

 

Porém, algumas vezes e de forma extrema, colocamo-nos ausentes da nossa própria essência e integralidade. Talvez essa minha reflexão também tenha um pouco de resquício do meu próprio pensamento conservador cristão.

 

Convivemos durante nossa vida com tantas piadas de mau gosto na família, na escola, nos bares e no trabalho que acabamos de alguma forma rejeitando a nós mesmos. Cobramos, boa parte de nós, comportamentos de conformidade e sufocamos, em algum momento, nossa identidade. Ainda não temos espaço para viver a adolescência de uma forma genuína através da nossa alma. A alma é imoral (como já disse Nilton Bonder). Não segue os padrões impostos por uma sociedade hipócrita.

 

Lembro de uma vez, aos 14 anos, em que me apaixonei intensamente por alguém da minha turma da escola. Um sentimento maravilhoso de querer bem ao outro e uma vontade inocente de beijar. O problema é que era um menino! O que era absolutamente proibitivo naquela época.  Tanto que, ao perceber minha vontade, ele chamou alguns garotos no intervalo das aulas para me atirar pedrinhas e areia, cantando a música do Chico: “taca pedra na Geni, taca bosta na Geni!”.

 

Fui tomado por um sentimento  de total abandono e vergonha. Eu me perguntava a quem pedir ajuda e não vinha ninguém na cabeça. Eu me sentia uma fratura exposta. A única reação que tive foi correr para ficar um tempo sozinho. Meu uniforme estava sujo, mas meu coração limpo.  Acho que ali aprendi o que é resiliência e a total indiferença a alguém, o que me deu coragem pra voltar para a sala de aula. Tudo ficou muito confuso. A minha orientação, ou melhor, a minha natureza sexual gay tomou uma proporção gigante na minha vida e tentei esconder desesperadamente meu desejo, pelo medo das reações externas. 

 

Como qualquer ser humano, estamos buscando nosso lugar de expressão no mundo.  A coragem de nos revelarmos dá a possibilidade a nossos amigos e às pessoas que amamos de aprenderem com a nossa história, entenderem quem somos e na maioria absoluta das vezes, acolherem da forma mais humana e integral quem somos. E assim, abrimos espaço para que o outro também se revele.  Deixamos de ser um gay, um bissexual, um hétero, uma lésbica ou um transexual e nos tornamos o Renato, o Cláudio, a Roberta, com toda nossa integridade, individualidade e diversidade.

 

A alma flui e nos pede mais amor, liberdade, resiliência, compaixão, empatia e inclusão. A alma se sufoca com tantas regras e preconceitos. Minha natureza veio com a minha alma, não dá pra mudar. Não é uma pequena característica física, ou um sinal que não gosto e procuro um esteticista ou cirurgião plástico para remover ou mudar. É algo intrínseco a quem sou! Logo, não tenho como buscar a cura ou resgatar o que passou. Por que é natural, é genuíno, é espiritual e é sim de Deus. Hoje, escrevo e compartilho um pouco da minha história porque tenho orgulho de ser quem sou!

 

Renato Santos, coach e facilitador. Apaixonado por gente e por celebrar a vida!

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