Vou comer doces de esperança!

November 12, 2018

 

 

É... cheguei ao penúltimo dia!

O processo todo começou vários meses atrás, chegar aqui tem um baita peso repleto de alegria e contentamento.

 

A conversa na sala de espera era da filha de uma senhora que estava acompanhando sua mãe por mais de 8 anos. Parecida com alguma atriz de televisão, ela falava com um ar de gratidão, reconhecia o lugar onde o tratamento estava sendo conduzido, falava da educação dos funcionários e como tudo aquilo tinha afetado sua vida, ao ponto de terem que se mudar do interior pra São Paulo. Pensei: “nossa como sou sortuda, um ônibus na faixa, em 15 min estou aqui.”

 

A conversa também abordava a volta da doença, que primeiro começou na mama, passou pro cérebro e algumas cirurgias foram feitas. Não tive como ouvir isso e não ficar com o coração acelerado. Logo fui chamada pra entrar e a conversa pra mim parou por aí.

 

Deitei naquela mesa pra tomar a penúltima sessão de radioterapia, como sempre, os funcionários super atenciosos, me chamando pelo nome, me ofereciam o que eles tinham de melhor, atenção. Só conseguia pensar no que a linda moça com sotaque carregado havia dito sobre os inúmeros regressos da doença em sua mãe.

 

Senti um aperto no coração, uma leve tristeza, pensei: será que farei tudo isso achando que estou “livre” mas seria engano meu? Será que terei que passar novamente por tudo isso algum dia?. O que preciso fazer pra não ter isso de novo? Decidido, vou parar de comer doce de vez pra evitar, será que funcionaria, garantiria alguma coisa? Bom, inúmeras perguntas em uma fração de segundo vieram à minha mente.

 

Com uma música do Sinatra de fundo, fui posicionada, fechei meus olhos como de costume e me conectei com Deus. Reconheci que sentia medo. Sim! Medo. Pedi pra Ele, que se Ele pudesse que não permitisse que eu tivesse que viver isso tudo de novo, expressei minha tristeza.

 

Algo na música me chamou a atenção e logo na sequência lembrei da minha intenção todas as 23 vezes que deitei naquela máquina. Lembrei que meu pensamento sempre foi de louvor ao nome do Senhor, de gratidão por estar vivendo aquilo, agradecia por todo o tratamento, pelas Anas, Samirs, Andréias, Giulianos, Celias Mara, Sõnias, Niltons, Lucas, João  e todos os outros profissionais que já estavam ou que entraram na minha vida pra fazer desse momento algo mais leve. Agradecia a oportunidade de viver um tratamento com muita leveza e com o mínimo de efeitos colaterais, agradecia os aprendizados que conseguia ter com a experiência e tudo mais, então meu sentimento mudou.

Reconheci que o medo tinha seu lugar sim, era legítimo, mas que a esperança precisava falar mais forte, mais alto, e sim, reconsiderei meu pedido. Pedi Esperança com E maiúsculo. Esperança pra acreditar que seja qualquer câncer ou outra coisa que eu tenha que enfrentar na vida, que eu possa vivê-lo com fé, com amor e com gratidão no coração.   

Terminei a sessão com sorriso no rosto e novamente gratidão em meu coração. Saí com passos leves e encontrei a senhora que era comentada na sala de espera, uma linda coroa que pegou o elevador com sua filha.

 

Elas falavam sobre a dieta que tinha sido recomendada pra outra paciente, e indignada comentava, “eu não vou deixar de comer meus doces não, ninguém tem certeza se isso realmente evitaria isso tudo, não sabemos a causa nem se isso adiantaria, depois se eu morrer, deixei de comer os doces que queria”. Sorri pra elas e agradeci!

 

Com lágrimas nos olhos deixei o hospital com a certeza: “tá bem, vou maneirar nos doces, mas vou deixar a vida com bastante açúcar pra enfrentar o que o futuro me reserva” Peguei o ônibus e em 15 minutos estava em casa com o coração quentinho pra trabalhar.

 

Por mais doces cheios de esperança e fé em nossas vidas!

 

 

Perguntas para reflexão:

- Quais doces que você tem deixado de comer na vida?

- Você substituiria seus medos pelo quê?

- Quais histórias te alimentam?

 

Magali Lopes, finaliza um tratamento de câncer de mama, gosta de bolo de chocolate belga e como coach, ajuda pessoas a reconhecer e enfrentar seus medos.

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