A menina curiosa


Sempre fui uma menina curiosa. Quando criança gostava de escutar histórias. Tinha predileção por escutar biografias e embarcava nas alegrias e tristezas de cada conto da vida real. Sempre achava as histórias lindas e acreditava que a vida é bela!! Não à toa me formei em psicologia, talvez para tentar entender as questões humanas da vida nem tão bela assim. Definitivamente foi uma escolha baseada no resgate da criança que adorava escutar as histórias.

Já na faculdade, um novo fator determinou minha escolha profissional: o desemprego do meu pai. Ele, um executivo brilhante, ao fazer um acordo de final de contrato, teve dificuldades de se recolocar e não teve nenhum suporte da empresa na qual trabalhou anos com muita dedicação e competência. Em casa, silêncio. O assunto desemprego era tabu! Mas o silêncio fala, e para entender tudo o que não foi dito, optei por unir a formação em psicologia com a carreira em Recursos Humanos. Que neste caso, não resolveria o problema da transição de carreira do meu pai, mas quem sabe eu entenderia o funcionamento das grandes corporações que contratam e demitem pessoas, sem se importar com as questões humanas?

O ambiente organizacional me seduziu. Tive a oportunidade de quebrar aquele silêncio de casa e usar toda a minha escuta a favor do trabalho! E assim construi minha carreira, passando por diversas áreas de RH. Conforme crescia na carreira fui perdendo a capacidade de escutar e perguntar da menina curiosa. Na vida adulta executiva são reconhecidos aqueles que dão brilhantes respostas. Não há espaço nem tempo para dúvidas, questionamentos, conversas reflexivas e, principalmente, não há ambiente para insegurança. Tornei-me uma expert em avaliar, julgar e ter todas as respostas...aprendi também a contratar e demitir.

A vida profissional estava indo super bem e eu cheia de segurança, respostas e certezas achei que estava na hora de escrever mais uma página deste conto de fadas da vida real. Queria casar, ter filhos e ser feliz! E isso aconteceu lindamente! Casei e tive dois filhos lindos. A maternidade veio para me ensinar muita coisa, bateu muita insegurança e dúvidas, mas a mulher maravilha é forte e não pode falhar. Estava surda e não tinha respostas para tantas perguntas e demandas: filhos, marido, casa, trabalho...e eu? Ah, sim! Tem eu também, né? A menina curiosa, que gostava de escutar histórias e conversar com as pessoas, andava mais calada e surda.

O conto de fadas da vida real era belo aos olhos dos outros e eu me sentia mal, até culpada, por não estar feliz!!! Angústia e coração apertado, principalmente no domingo à noite. Olha que louco!? Marido maravilhoso, filhos saudáveis, trabalho legal...mas o coração batia acelerado sabendo que a 2a feira iria chegar!

Sem que eu escutasse os sinais do meu corpo: dor nas costas, dor de estômago, insônia...um dia o corpo berrou! No silêncio, um câncer de mama gritou. Ele foi descoberto num exame preventivo. Aos 37 anos, casada, com filhos de 5 e 2 anos aprendi a escutar meu corpo. Olhei para a morte e vi a vida! Tive muitas perdas: mastectomia radical da mama direita, perdi os cabelos, cílios, sobrancelhas, mas não perdi o sorriso, a alegria e a vontade de viver.

Resgatei a essência da menina curiosa e resolvi fazer o que mais gostava, mas dessa vez decidi escutar a minha própria história e quem contou foi o meu coração. Aprendi a escutar o meu corpo, o peito sem bico, que pede um creme hidratante. A cabeça sem cabelo, que pede um lenço por causa do friozinho gostoso do vento gelado. O nariz sem pelinhos que ardem ao respirar e pedem um soro! Aprendi a escutar o silêncio, não do tabu do desemprego ou do emprego que não me fazia mais feliz, mas o silêncio da harmonia. Aprendi a silenciar a mente não para buscar respostas ou fazer perguntas, mas silenciar para respirar profundamente e me sentir viva de verdade! Silenciar a mente para escutar como está a batida do meu coração. Silenciar a mente para me escutar, para me sentir, para me amar!

O câncer foi um presente, passei por um tratamento físico, emocional e espiritual. Acredito que a espiritualidade não está relacionada a religião - respeito e saúdo muitos deuses. Mas para mim, a espiritualidade é olhar para o céu azul, respirar profundamente e me emocionar porque estou viva. É pisar na terra e sentir a energia da mãe natureza, é tocar o mar e me hidratar, é olhar para o fogo e sentir em mim a sua potência! É sentir gratidão, a verdadeira gratidão de estar viva e acreditar, como a menina curiosa acreditava, que a vida é bela!

Estou curada, o câncer se despediu de mim há um pouco mais de 3 anos, mas ele deixou a sua marca. Não as cicatrizes das costas ou do seio, mas o ensinamento de voltar a escutar com curiosidade. Escutar meu coração, honrar a minha biografia e construir com autoria o meu conto da vida real.

Hoje em dia a menina curiosa continua escutando histórias...uns chamam essa prática de Coaching, mas eu chamo de oferecer para o mundo o que é o melhor de mim, uma escuta amorosa.

Karina Colpaert é Coach de vida e carreira. Após receber um diagnóstico de câncer de mama e ter contato com os mais profundos sentimentos, quando curada fez uma transição de carreira e hoje é plenamente realizada exercendo o Coaching. Gosta de escrever, dançar, cantar, praticar Yoga e ama escutar."

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