Só faz sentido se é sentido*


Na minha profissão é muito comum buscarmos cursos de autodesenvolvimento que nos ajudem a olharmos para nós, para o futuro, dentre outras coisas, e mais uma vez estava em um daqueles cursos que você fica fora de casa uns 2 ou 3 dias.

A atividade pela manhã era Euritmia, que nem é dança, nem é ginástica, também não é alongamento ou mímica. Numa visão bem simplista e superficial, pode ser entendida como uma vivência artística, através de gestos e movimentos.

Estávamos com o bastão de cobre, uma querida amiga “duplava” comigo e havíamos de jogar o bastão uma para a outra, de forma equilibrada e harmônica.

Encontrar o ritmo com ela foi fácil, conexão já era existente entre nós. Olhares indicavam o ritmo, sorriso alegre de cumplicidade, leveza. Sim! Leveza.

Ritmo cadenciado, percepção geral do grupo, sentíamos que poderíamos mais, então decidimos por conta própria dar um passo além. Indiquei que iria fechar os olhos, sem hesitar ela sorriu entusiasmada consentindo a iniciativa, estava de olhos fechados!

Continuamos com velocidade cadenciada, ritmado, a sensação de confiança e conexão com ela era gigante. Abri os olhos e ela sinalizou: agora vou eu. E ela foi. Perfeita harmonia.

Comecei a perceber a forma que pegava no bastão, “concatenei” que poderia pegar com os dedos mais firmes pois apoiaria o jogar, percebi que se abrisse mais a mão poderia pegar melhor e correria menos risco do bastão cair, observei a posição da mão dela, do corpo, dos pés, mensurei nossa distância, se tivesse um esquadro teria calculado o grau de rotação dos nossos corpos.... Tudo em fração de segundos.

Caiu! O bastão caiu.

Ela me olhou surpresa e com atitude cuidadosa fora buscar o tal bastão.

Na hora um misto de frustração e o questionamento: o que deu errado!? Estávamos indo tão bem, havíamos conseguido ir além do solicitado, percebendo o outro o grupo, o som, ah... longa respiração, depois de alguns minutos comecei a perceber a minha enorme racionalização.

Pra que racionalizar?! Pra que calcular tanto? Imaginar melhores posições, jeitos para a jogada? Não estava dando certo? Não estava gostoso? Não estava conectado e fluido? Não era preciso pensar, só sentir. Viver o que estava acontecendo ali.

Meu incômodo não parou por ai. Naquele final de semana refleti por várias vezes sobre o quanto estamos distantes das "sensações" da vida, anestesiados de várias maneiras, racionalizando, nos protegendo de tudo a nossa volta, tomando decisões sem consultar nossos mais profundos sentimentos.

Não sentimos calor porque temos ar condicionado; se está frio, os aquecedores ficam na última potência. Saudade?! Pegamos o "mobile" e logo nos conectamos com uma outra pessoa para nos sentirmos melhores; tomamos remédio pra não sentir dor. Dor?! Rivotril, Estomazil, Quadrilaz...Tem "remédio" pra tudo. Tristeza?! Assistimos a um filme e logo pensamos em algo diferente.

Lentamente nos distanciamos do “sentir”, ficamos anestesiados dos sabores, temperaturas, das emoções. Jantamos ligados e almoçamos com pressa.

Nos deparamos com a condição de termos pouco ou quase nenhum momento sozinho para nos analisarmos, nos perceber e entrar em contato com nossa independência, sentimentos, sensações independentemente de como isso se apresente à nós.

Leonardo Boff, grande filósofo e teólogo nos convoca um outro olhar em seu artigo Resgatar o Coração:

“numa palavra, importa resgatar o coração. Nele está o centro, nossa capacidade de sentir em profundidade...”

Evidente que algumas pessoas vivem impulsos mais do pensar, outros mais sensíveis em perceber o sentir e outros mais preparados e desejosos da ação, inclusive sendo influenciados pelas suas gerações, enfim, mas uma coisa é certa, há um equilíbrio muito frágil entre as emoções e a nossa racionalidade, como ressalta o psiquiatra italiano Mauro Maldonato.

Ter maior consciência sobre seus impulsos mais naturais, inatos e buscar maior interação dos outros impulsos, pode ampliar sua sensibilidade para sentir o mundo muito mais vivo, colorido, seus odores, e intensidades.

Pra mim, fica a certeza de que quando me afasto e me anestesio das sensações da vida, me distancio também de saborear momentos de muito prazer e de muito significado.

Cresce a vontade de então me voltar para uma busca consciente em desenvolver a minha permanência nos impulsos menos predominantes, e desfrutar os momentos onde é possível apenas deixar existir, deixar sentir, fazer uma auto consulta das sensações e dar cor, sabor, odor, fazer viver um respirar diferente, com outra estrutura.

Não quero com isso defender uma vida sem o uso da razão, o que seria de mim? ou melhor, o que seria de muitos de nós? Simplesmente impossível e inviável, esta talvez seja a busca para a construção de um mundo diferente com mais significado, pois, como diz Lala Deheinzelin em seu livro Desejável Mundo Novo: Só o que é sentido faz sentido.

Perguntas para reflexão:

  • Como você tem tomado suas decisões?

  • Qual a proporção da razão e da emoção na sua vida?

  • O que tem feito sentido pra você que está sendo sentindo?

  • Como você tem sentido a Terra? Quais os sabores, cores, odores, paisagens?

Você está sendo anestesiado pelo o que?

*desenvolvido a partir da frase de Lala Deheinzelin citada no livro Desejável Mundo Novo.

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