Redes colaborativas, confiança e estado de entrega

 

Tenho vivido um movimento lindo nos últimos meses. Parece que de repente muitas portas se abriram e minha empresa tem funcionado toda no formato de redes. Projetos de diferentes naturezas, com pessoas de diferentes universos. Lindo de ver e viver isso!! E aí fico me perguntando: como se dá esse processo de formação de redes colaborativas? Que elementos ele carrega? O que ele acessa em nós?

 

Nesse post arrisco alguns palpites. Não com a intenção de definir padrões de funcionamento de redes colaborativas — seria ferir demais a sua natureza tão orgânica, fluida e generativa — mas com o desejo de refletir sobre os movimentos de, digamos, reconfiguração do humano que nos habita.

 

1. Em estado de entrega

No início da minha empresa estava muito preocupada em planejar e ter tudo devidamente pensado e formatado, com um mapa de todos os próximos passos. O planejamento foi importante até um certo ponto. Chegou um momento em que as coisas não estavam andando mais e eu me sentia sozinha e patinando. Vi que estava querendo controlar todas as variáveis e isso me distanciava do fluir das coisas. Da vida acontecendo do lado de fora enquanto eu ficava na minha caixa apertando meus botões de controle.

 

Percebi que quando soltei isso, quando saí da resignação e me abri para as possibilidades, as pessoas certas e no momento certo simplesmente começaram a aparecer. Projetos começaram a nascer. Diferentes e melhores do que eu havia planejado. E eu não fazia nenhum esforço para isso acontecer.

 

Entendi que estou vivendo um momento de grande abertura. Esvaziada de premissas, de modelos, de conceitos, de necessidade de controle. Apenas aberta e presente para o que puder acontecer.

 

2. O renascer da confiança

Percebo nas redes uma confiança natural entre as pessoas. Sem pré-requisito. Sem nenhuma comprovação assinada e com firma reconhecida em cartório. Apenas confiam. E confiam não só umas nas outras, mas num todo maior. Confiam na abundância que temos e que somos.

O desejo de retomar a união e a conexão num mundo em que nos fechamos tanto uns aos outros tem renascido forte como pequenos verdes pelo concreto de São Paulo. E o medo de dar errado tem sucumbido à energia nutridora de estarmos juntos.

 

Fico encantada e feliz demais em ver negócios acontecendo dessa forma. Em ver que estamos resgatando, no jeito de se fazer negócios, esses elementos sutis como confiança, união, respeito, colaboração. Porque ninguém aguenta mais a falta disso. Porque estamos cansados de ser sozinhos, de estar sempre na defensiva ou prontos para o ataque. Porque estamos entendendo que não precisamos disso e que a prosperidade vem sim e vem de maneira muito mais sustentável e saudável por outras vias.

 

3. O eu de verdade

Nunca vimos tanto por aí a busca por se viver com um propósito. Cansamos de toda manhã nos vestirmos de um personagem que não somos, para tentar encaixar num modelo que não nos serve. Estamos finalmente honrando quem somos de verdade. E isso significa um reencontro com nós mesmos.

 

Reencontrar-nos com nossos talentos — aquilo que fazemos bem e nos é natural. Com aquilo em que acreditamos do fundo do coração e que não foi ninguém que nos disse, nem sabemos de onde vem, apenas existe ali. Encontrar-nos com nossa luz, nossas forças, habilidades e qualidades. Com a intuição, com a leveza. Com aquilo que sabemos. Com nossa força criativa. Com todo aquele vendaval de coisas boas que nos habita.

 

Há muitos outros fatores que envolvem as redes colaborativas, mas esses três me saltam aos olhos. E me fazem pensar que talvez estejamos passando por um processo bastante profundo de individuação (não individualismo).

 

Um processo de nos tornarmos indivíduos de fato inteiros. De estarmos assumindo a responsabilidade por construir a vida que realmente desejamos, seja em relação ao tipo de trabalho que queremos, ao tipo de relacionamentos em que acreditamos, ao tipo de comida, de lugar pra se viver, enfim, todas as dimensões.

 

E cada vez mais me convenço de que o tão sonhado “mudar o mundo” só acontece se nos apropriarmos de nós. Porque assim estaremos colocando nosso melhor a serviço do mundo. Não tem como dar errado.

 

A foto que ilustra esse texto foi tirada pela querida, sensível e brilhante amiga Audrey Hojda, por suas andanças em São Paulo. Em seu facebook ela diz: "Aprendendo com a natureza: resistir sempre!"

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